quarta-feira, 25 de maio de 2011

Até o teto tá de ponta-cabeça

Como sempre esfreguei meus pés antes dos olhos. Existe um felicidade contida quando escuto uma música desconhecida vindo do cômodo ao lado, tem a letra em italiano, me faz despertar tranquilamente e sem medo. Pé direito no chão, caixa do correio vazia. Não ligo, sua letra não é mais necessária, minha certeza está no que ficou gravado. Um café, por favor.
Descubro a cama. Descubro coisas. Sim, descrobrimos coisas. Penso e páro de pensar no mesmo segundo. A felicidade pintada no espelho do banheiro, com tinta azul. Um soco na alma de quem tenta achar resposta para tudo ou para quem já tem resposta. Cada dia que passa eu me apego mais a dúvida. Deixa ela comigo, um dia a gente se entende.
Guardei minhas armas e o escudo de ferro hoje de manhã. Não vou usá-las mais, não dessa vez. Melhor deixar o peito aberto, mesmo que ele insista em se fechar. Não se trata mais de conquista, nem nunca tratou. Encontros são encontros. Caminhe.
Caneca amarela. O que me impede de ler ou de deixar que ele chegue logo sou eu mesma e não qualquer verdade que se impõe. Dúvida, volte para o meu lado. Café derramado.

Gostei de saber que tenho bom humor. Gostei da frase no espelho de hoje. Gostei de acordar outra vez. Gostei de sonhar com a praia. Gosto das músicas que tem tocado no meu rádio esses dias. Me deixam amar novamente. Gostei de sonhar com uma casa. Amar todas as coisas que já amei. O mundo não pode ser feito para sofrer.

"Pras janelas se abrirem pra mim
E o vento brincar no quintal
Embalando as flores do jardim
Balançando as cores no varal"

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Conto perdido

A máquina faz um barulho estranho, mais alto do que o normal. Está quebrada. Ainda faltam algumas laranjas para que eu termine o suco. Minha mulher faz um barulho estranho, mais irritante do que o normal. Talvez seja sua respiração ou seu andar. Está quebrada. Mais alguns passos são necessários até que ela chega ao banheiro. Ela arrasta o chinelo. Eu tomo o suco.

A rua parece mais acelerada do que meus passos. Tudo parece desmoronar ao meu redor. Sinto que na verdade sou eu quem desmorona. Meu cabelo tem caído aos tufos, estou cada vez mais careca. A ciência tenta devolver meu cabelo, mas não impede meu desmoronamento. Acelero o passo, lembro dos passos de Renata até o banheiro. Ela se arrasta.

Chego na biblioteca. Aspiro o mofo. Caminho até a prateleira de filosofia antiga e toco alguns livros. Aspiro o mofo que fica nos meus dedos. Trabalho como restaurador e sinto-me feliz assim. O silêncio da biblioteca não acontece por obederecem as placas - SILÊNCIO . Acontece porque não há pessoas por aqui. Que alívio. Prefiro mofo à gente.

Meu horário chega ao fim. Posso ouvir os passos de Renata. Agora no salto. Arranha o chão e irrita o 302. Me irrita. Sou apaixonado pelas Deusas. Exatamente por serem Deusas. Renata nunca será uma, nenhuma mulher é uma Deusa. Afinal "mulher é tudo igual, se bobear os convites vão pra gráfica". Ela tira a sandália. Que alívio! Ela me beija e diz que vai fazer o jantar. Queria pedir uma pizza, mas tudo bem.

Sinto falta de não ser amado. Gostava mais de minha mãe. Ela nunca me beijou e sempre pedia pizzas. Não gosto do amor, gosto dos livros.

Como o jantar. Como Renata. Tomo outro banho. Coloco o óculos e pego meu livro. Corto o dedo no papel. Não ligo. Pego no sono com óculos e sangue nas mãos.

Acordo. A máquina faz mais barulho do que ontem.

sábado, 30 de abril de 2011

Poucas "ls"

Rachaduras do ser
Amores incompatíveis
Maneiras de encontrar
Ornamentos que decoram nossa música
Navios que vão por terra, ou por rios.

Aprendendo novas palavras.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Ludicidades, neologismos, solidão e unidade

Outro dia estava lembrando umas brincadeiras que fazia quando era pequena, brincava de ser mãe, de cozinhar, brincava de sereia e de professora. Nunca quis ser rainha de nada, e sempre me virei muito bem sozinha. Mãe solteira, chef cozinha independente, sereia que ultrapassa uma "passagem" para o mundo humano que eu mesma fazia batendo com força as pernas na água, professora de cadeira vazias. Para os outros eu gostava de me exibir dançando. O curioso é que não sei cozinhar, não vou para o fundo do mar e me recuso a inventar um jeito de proibir um filho seja lá do que for. E a dança? Haha, isso nem comento. Só que me lembrei dessas brincadeiras não pára descobrir se ainda sou o que era quando criança lembrei por lembrar como eu era feliz sozinha, como eu não tinha medo de me perder no meu mundo, na minha cabeça, nas minhas idéias, na imaginação. Hoje tenho pavor.

(Também temo da sensação dolorosa de não acreditar em ninguém, de não conhecer ninguém, não entender ninguém. Isso é ser sozinho; pensar que os outros são meras continuações de mim? Isso é solidão, pensando assim existo sozinha. Só não quero me perder no assunto. Deixe-me continuar.)

Nas minhas brincadeiras nunca fui rainha, nem nunca quis ser. Nunca me vestia para o príncipe encantado, nem pensava nisso. Esperei crescer para me candidatar, esperei crescer para não chegar nem no primeiro degrau, nunca me aproximei do trono. Depois de grande a gente resolve brincar de sofrer, e sofre como se tudo fosse tão real. Sentimos dores que nos grudam na vida, que fazem com que nossas brincadeiras infantis pareçam sonhos, mentiras, um monte debobagens. Bobagem é viver e achar que isso que é o real. Bobagem é esquecer-se do teatro e fingir que somos e não que encenamos. Sem ensaio, sem roteiro, tal como minhas brincadeiras de criança.

Deixo aqui uma saudade de algo que nunca se separa de mim, eu mesma. A menina criança não morreu, nem ficou pra trás, nem mudou juntos com minhas formas. A criança não fica em algum lugar do passado, nem nas fotos, nem nas lembranças. Eu sou a mesma que dava aulas para cadeiras vazias, a mesma que sabia ser a melhor mãe do mundo? Sou e não consigo aceitar, insisto e perder-me por aí, em amadurecer qualquer coisa que não se amadurece. Sexo, dinheiro, profissão, e a morte no final, sempre no final.

Amanhã quando acordar vou brincar de alguma coisa, dessa vez sem pensar que pensam que minto em ser essa que sou.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

O circo

Sim, ela pode voar. E eu também. Aprendemos cedinho, nos conhecemos cedo também. Nosso vôo dura poucos segundos, no entanto é tempo eterno, suficiente. Desde pequenos andando por esse mundão, eu nasci para palhaço e ela para voar, eu segui meus passos naturais e os dela também. Seguia seus passos morrendo de medo, apavorado... mas era tão bom ficar junto, quando caímos naquela rede enorme eu podia sentir o peso de tudo que vivia dentro daquela lona. Lona que faz com estejamos sempre em casa, mesmo que cada mês em uma cidade diferente. Cidade grande, cidade quente, cidade pequena, cidade que tem nome por acaso, cidade fantasma, cidade linda. Sim, eu poderia viver em uma cidade só, mas para que? Eu tenho uma casa e vivo em todas as cidades que eu quiser. Se um dia eu cansar, eu morro.
Preciso voltar a ela, minha sutileza, minha passarinha, minha fantasia de palhaço. Ora pinto algumas lágrimas, ora pinto o sorriso. Sempre tenho o mesmo nome, parece até que o nome que minha mãe me deu é apelido e o de palhaço é meu. Um palhaço trapezista, que tenta falar da sua mulher e não pára de falar de si. Ela é minha mulher por condição, sei que se pudesse me abandonar sem abandonar o circo, o faria. Ai, como eu amo essa picadeiro. Todo mundo pensa que é o lugar da alegria, mas digo, nem sempre é assim. Eu preciso chorar pra dentro, chorar sorrindo. Palhaço não chora?
Voa para mim minha pequena dos cabelos negros. Não solta da mão dos outros trapezistas, mas não se apaixone. Morro de ciúmes, perco o tempo da piada. Um dia vou voar melhor do dou cambalhotas. Um dia eu seguro seu voo diante do respeitável público, um dia .

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Casamento

Lourenço - Calma.

Noiva - Eu vou te matar.

Lourenço - Calma!

Noiva - Os convites já estão na gráfica. Você tem outra né?
Mesmo que você não me ame, a gente vai se casar. A gente vai.
Aceito tudo, tudo. Eu te amo, querido. Eu te amo.

Lourenço - Eu não tenho nada pra te oferecer. Você também não
tem nada pra me oferecer.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Engasgo de certeza



Os engasgos não estão nas palavras.
Sempre me pergunto como ter certeza das coisas que sinto, e no fundo é melhor acreditar, sentiu tá sentido. Na mentira aguardo pela surpresa, e na verdade pela decepção. Assim funciona, movimento das certezas.
Para acreditar no amor não basta uma sentença, não basta o eu te amo. Acredito no que está em outro lugar, impossível de indentificar, de apontar, apenas reconheço. Talvez tenhamos por costume dizer amo isso ou aquilo nele, amo o jeito que faz isso, amo o jeito que olha isso. No entanto a impossibilidade de apontar uma única causa para o amor reforça minha idéia do lugar sem nome, não se ama por isso ou por aquilo. Ama-se por não saber o dizer o porquê.
Não acredito na saudade declarada, acredito no tom da voz, acredito no silêncio de quem apenas não sabe dizer como sente minha falta, é quando as palavras se confundem, é um engasgo de certeza e não de dúvida. Não achar as palavras para descrever a saudade é mais sincero do que simplesmente declarar que sente.

O olhar com desejo, o toque de quem quer tornar-se um único corpo junto ao meu, a surpresa do beijo roubado, o cheiro que vem dos pulmões, admirar o outro enquanto dorme, a saudade da boa.

domingo, 3 de abril de 2011

A carona

No banco do carona eu espero e sinto muito calor. Não sei por mais quanto tempo vou ocupar aquele lugar, você dirige e não me importo. Finjo que não vejo você chegar, não movimento nenhum músculo do corpo, nem mesmo por sentir o suor queimando meus olhos. Você senta, liga. O carinho que nos é anterior a qualquer coisa, logo se faz presente em nossos braços que se cruzam, coxa e nuca. Tenho a certeza de que irei buscar esse cruzamento em próximos encontros de minha vida, no entanto quando outros dedos encontrarem minha coxa não sei serei capaz de levantar a mão e tocar outra nuca . Nossos entrelaces, por mais fortes que ainda sejam não tem mais lugar em nossas vidas.
O carro está andando, minha mão perde a força e não te segura mais. Meus olhos perdem o foco, me sinto submersa. Logo acima de nós uma ponte, um elevado, alguma coisa assim, parece que todos os carros resolveram ir por lá e deixaram esse casal falido na parte de baixo.
- Meu amor, minha casa é para o outro lado.
- Sua casa? Casa dos seus pais.
- Agora eu vivo lá.
- Não deveria.
Você ensaia uma briga e eu não quero escutar. Sua mão direita já voltou para a direção desde que chegamos perto da ponte. Não sei se por raiva, por nojo. Talvez não sinta mais que sou sua. Eu sou, sempre vou ser, só não aguento mais as dores que sinto após nossas brigas. Enquanto brigamos me sinto viva, sinto que te amo e que você me ama de volta. Parece que exatamente por isso, por não suportarmos sentir intensamente o indefinível, gritamos, quase nos agredimos. O que dói é a morte que sinto depois, me falta um ar que não sai dos pulmões, poderia morrer e ter um corpo vivo. Será que você me entende?
Saio do seu carro, meu chaveiro com outras chaves. Te abraço, você fica imóvel. Aceito aquilo como amor e vou embora. Lembro-me da primeira vez que precisamos nos separar e você disse : "não olhe pra trás". Não obedeci, claro! Assim que o vidro tornou-se transparente somente para mim, fixei meus olhos no cenário que você ocupava, virei para trás e mantive meu pescoço travado até que a curva do ônibus me roubasse de você por 6 meses. Lembro e decido que agora não poderá mais durar seis meses, tem que durar para sempre. Não olho para trás, dessa vez o vidro é transparente para você.


" Sometimes it lasts in love, but sometimes it hurts instead "

sexta-feira, 18 de março de 2011

Repostagem

O carnaval já passou e foi lindo.
Alguns anos já se passaram desde que escrevi isso e não acredito que fui eu. Precisa de revisão como a maioria dos meus textos, mas eu gosto.
Hoje é aquele dia que eu resolvo abrir meu blog, ler as coisas que eu escrevo e decidir que escrevo bem. Que me falta coragem, paciencia, carinho e confiança em mim mesma.
Alguns amigos confiam em mim. Vou repostar um repost que o Brunito fez em 2008, de um texto que escrevi sei lá quando.
Quem sabe não me animo e começo a cuidar do meu blog com mais carinho.




SÁBADO, 5 DE ABRIL DE 2008

Noite dos mascarados

Hoje vou compartilhar um texto fanstástico, baseado na música Noite dos Mascarados de Chico Buarque. Desde da vez que li fiquei encantado, tanto com a música que escutei uns dias antes de ler. O texto é lindo e foi escrito por uma grande amiga minha, Paula Clapp.Vocês vão gostar.

" - Eu sou seresteiro, poeta e cantor
- O meu tempo inteiro, só zombo do amor
- Eu tenho um pandeiro
- Só quero um violão
- Eu nado em dinheiro
- Não tenho um tostão...
- Fui porta-estandarte, não sei mais dançar
- Eu, modéstia à parte, nasci prá sambar"

Chico Buarque

E assim foi a noite inteira uma eterna apresentação. Dentre os tantos esbarrões que atrapalhavam os beijos e os confetes que grudavam nas costas tão bonitas daquela moça, Ele podia jurar que se não fosse carnaval se casaria com ela, mas pra evitar o que sempre temeu achou melhor nem perguntar seu nome, só continuar dançando e respondendo suas perguntas. Agora, ela ... se espantou com a cantoria tão antiga para um rapaz tão novo. Se encantou com mãos tão bonitas e dança a toda hora. Me deixa ir, pedia. Os dois queriam pular entre aquela multidão fantasiada, se entrelaçar pelas serpentinas, sentir o gosto das drogas que ali se serve discretamente. E ao mesmo tempo queriam se encontrar a cada três passos. " Vou ali ", " Fico aqui", Corrida para o banheiro. Ele realmente voltou e ela esperou. Não que no caminho não tenha promovido outras mulheres a suas atuais amantes, nem que ela na dor da espera não tenha se consolado com outros. Foi como o tal casamento evitado. Amor bandido de carnaval. Amor bandido de todos os dias. Do cotidiano mesmo, feito em uma noite, pulo a pulo, sem perder nem um sorriso e evitando as lágrimas. Lágrimas só as que ele pintou, faziam parte de uma metade do seu palhaço.
Um palhaço e uma boneca. Exatamente o que eram por fora e por dentro. Para que lavar o rosto? Para que tirar aquela mascara tão bonita que pintaram no plano exato de procurar seus pares. Assim foi até o salão ficar vazio e abrigar apenas os recém casados daquela noite, os amantes fugidos e alguns solitos que se afogaram na bebida.

Paula Clapp


" Mas é carnaval, não me diga mais quem é você
Amanhã tudo volta ao normal ... "

Chico Buarque




sábado, 26 de fevereiro de 2011

A marca dos seus olhos

A dor não está nele, nem em mim. Não é culpa da saudade, nem da nossa nova oportunidade. Dói saber que sentimos algo que não sabemos definir, e o que não tem definição não tem lugar no mundo. Não faz namoros, nem casamentos, nem mesmo brigas. Não sabemos definir e não somos capazes de juntar essas dúvidas, assim eu fico aqui, você fica aí e apenas nos permitimos pensar, sonhar.
O que também não me livra da dor, das lágrimas, e as vezes da felicidade de ainda saber como é você. Quando acho que esqueci seus traços, um sonho mostra que lembro os traços, o cheiro e os olhos de lágrimas, com a marca do lado, que eu tanto amo. É, amo. Guardei no fundinho de alguma gaveta do meu ser, está quietinho, mesmo me mostrando que não se apagou sempre que aparece nos sonhos. Assim as coisas vão acontecendo. Assim como você todas as coisas que aconteceram, e todos as coisas que acontecem são exatamente quem sou eu, ou pelo menos a parte de mim que reconheço.
Muitas gavetinhas. Que guardam pessoas e outras coisas.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Pinto todos os dias as unhas de uma cor diferente, o que não adianta nada, sempre borro na hora de pagar o trocador ou quando resolvo fumar antes mesmo de pegar o ônibus. Nos últimos meses ganhei alguns quilos e isso me impede de usar as roupas que quero ou de me sentir confortável na calça jeans, mas tudo bem, já aceitei que minha relação com alimentação é estruturada de uma maneira bastante esquisita, compulsiva. Coloco bastante café na caneca, que mancha a mesa sempre no mesmo lugar. Começo a pensar tudo que tenho que fazer, penso no dinheiro que preciso pra pagar contas e não tenho, penso que amar o trabalho não vai pagar as contas e pagar as contas não vai me fazer amar o trabalho.
Uma música começa a tocar na casa do lado, lá mora um casal. Eu tenho certeza que a cena foi a seguinte, ele levantou, olhou para ela com olhos de uma criança que teme perder aquele travesseiro com cheirinho, e ligou o som. Voltou e deitou com ela, abraçando. Ela fez um barulho que aprendeu com ele, para demonstrar prazer. Nesse momento o casal já deixou de ser o da casa do lado, bebo o final do café, espero que o doce do fundo da caneca me traga de volta para realidade. Até quando vou sair da minha casa sem ao menos levantar da cadeira na hora do café?Como biscoitos, claro. Se não o jeans estaria perfeito.
Meus pés me levam até o banheiro, talvez incomodados com a sujeira que não limpei de suas solas antes de dormir. Minha cabeça coça, e tem cheiro de travesseiro. Tenho notado que meus hábitos de higiene estão precários, e isso foi gradativo. Tem a ver com não acreditar no corpo, não controlar o sono e não ter resolvido bem minha fase oral. Ui, odeio pessoas que citam psicanálise, mais um motivo para eu não gostar de mim.
A lista de coisas para fazer está aumento, o prazo de entrega do projeto terminando, o apartamento fechando as portas, as roupas diminuindo, meu português sumindo, as dores oscilando, a saudade de sentir saudade, as máscaras caindo.

É, hoje foi um péssimo dia.








domingo, 27 de junho de 2010

Quem sabe






Vamos falar sério
Tirar nossas roupas
Olhar-nos para sempre
Até nossos olhos secarem
Quem sabe até ficarmos cegos

Pouco tempo nos aproxima
Alguns anos te afastam de mim
Vou sorrir para os seus olhos
Até que minha boca seque
Quem sabe até partir e deixar marcas

Vamos mentir um pouco
Ficar aqui sentados para sempre
A praia está linda
Vou esperar até a aguá enrugar meus pés
Quem sabe até nunca mais poder levantar

terça-feira, 8 de junho de 2010




testando.


testando.



An' what it all comes down to
Is that everything's gonna be fine fine fine

segunda-feira, 31 de maio de 2010




Já pode começar a chover. Vai completar a cena. Dois sentados na calçada, duas garrafas e caminhos diferentes pra casa. A casa antiga ficou assim, ruínas, as quais se tudo der certo serão destruídas pela mesma chuva que vai molhar roupas que nunca vão mais secar.
Ele tem os olhos serrados, faz tanta força para não chorar que nem percebe que isso faz dele mais triste do que ela, que só parou de chorar porque não tinha mais forças. O medo de levantar e nunca mais estar juntos trava os dois no chão sujo. Talvez fosse melhor morrer ali.

Desculpas para confusões criadas por mentes que ao invés de funcionarem juntas preferem a distância. Tentativas frustradas de não chegar em lugar nenhum. Pessoas que ela colocou na vida dele, outras que ele colocou. Pessoas que ela colocou na dela. Pessoas que desaparecem junto com todo o resto. Implorando por uma paz que conhecem bem. Uma paz que só é possível divida e que insiste em se fazer sozinha.

Depois de tanto apelo para isso, ela só pode ir embora. Erra o caminho. Chega até a antiga casa dos dois, não tem mais a chave. Não sabe nem onde fica a porta. Senta na calçada oposta. Só vai sair de lá quando não sobrar mais nada. Enquanto isso começa a lembrar do dia que o conheceu, vai lembrar até esquecer qual era o perfume daquele dia. De tanto lembrar aquilo vai perder a importância. Espera sentir enjoo de pensar no mesmo cheiro tanto tempo, sem parar para respirar nada novo. Promete agora nunca mais errar o caminho. Nem os restos no chão podem fazer parte da sua vida.






quinta-feira, 6 de maio de 2010

Tem um filme que nunca acaba. Uma água que nunca ferve. Um travesseiro que quase cai no chão. Algumas folhas quase balançam. O vento vai entrar pela janela. Um motor ainda quente. Tudo cheio de poeira. Nada se move. Dois que dormem. O único movimento em cenário congelado. Só assim. tudo dá certo.


domingo, 28 de fevereiro de 2010

there's a moment. there's always a moment.

Tudo que esperei veio por outros lados, direto de outros olhares. Tentando desviar, tentando manter meus pés em sua casa, acabei assistindo seus dedos enrolarem outros fios de cabelo que não os meus. Assim, minhas lágrimas ajudaram a descolar meus pés do seu chão e seu silêncio foi substituído por outras palavras.
Surpresas são sempre benvindas e agora a saudade é por minha conta. Não conheço seu caminhar e nunca vou conhecer, a qualquer momento ele pode desviar do mim, já que você não segura na minha mão. Não gostar de caminhar sozinho e querer caminhar comigo são duas coisas totalmente diferentes. Olhe para frente, o que você vê ?
Tanta incerteza acabou com o que havia antes. Não há nada trincado, quebrado ou rachado, certas coisas mesmo que continuem intactas deixam de combinar com nossa estante. Nem mesmo os sinas que me atingem todos os dias são capazes de trazer a beleza que existiu de volta, são apenas sinais que finalmente faço questão de fingir que não vejo.
Há muito mais poesia na minha caixa de correio do que em toda essa história. Sinto falta da fantasia, do que nunca existiu. Minha saudade não tem direção, são fantasmas do que desejei e pintei em você.
Agora é o momento.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

"Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles.
Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles.
Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração.
Como eles admiravam estarem juntos!
Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos."

Clarice Lispector



Alguma coisa já consigo ler. Isso é um bom sinal .
Um beijo feliz para que anda triste .

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

more than songs can say.

Procurei decorar todos os detalhes, dos quatro cantos. As lembraças ficaram embaçadas como se eu estivesse no fundo de uma piscina, lágrimas que não pingavam, ficaram contidas enquanto eu olhava bem para onde não queria estar nunca mais. O colorido que fica bem organizado por uma das paredes, tudo que não sei nomear, algumas das minhas coisas espalhadas. Além das imagens decorei o som, o cheiro, sua presença e as ausências que lhe perseguem.
Existe um tempo certo. Por isso me levantei, coloquei meu sapato e arrisquei levar seu casaco para o frio que poderia estar fazendo. Quem não sente falta de nada, não iria sentir do casaco. Quase no silêncio total uma gota desceu pelo canto do nariz e tudo aquilo que não controlo me fez sentar na ponta da cadeira, perto da porta. Quase voltei, quase fiz qualquer barulho para chamar atenção. Lembrei do tempo, lembrei que não é tão difícil assim.

Agora tudo parece calmo. Vazio e tranquilo. Deixei tudo que eu tinha pelo caminho. Agora vou parar com tudo, não vou mais buscar essas fotos que mostram o quanto nos perdemos, o quanto não somos mais nada. Ainda tenho as dores do dia que abandonei a minha mesma. Sinceramente prefiro as dores de abandonar você. Não porque eu quero. Só não há mais lágrimas, nem força. A última escorreu pelo rosto, não fiz barulho. Prefiro te deixar sonhando.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Vou tentar explicar. Eu não inventei nada, já veio tudo pronto. Os olhos, as marcas, a cor, altura, as mãos, o sorriso (forçado ou não). Se eu tivesse inventado até ia ficar parecido e sem defeito de fábrica. Ou melhor, qualquer qualidade que pra mim é defeito. Enfim, essa é a primeira parte. Aquela que já veio pronta.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Ritmo?

Ficaria rolando aqui por horas, olhando os detalhes que se derretem como as velas de algumas horas antes. Sem falar nada é muito melhor, melhor ainda se eu pudesse não abrir meus olhos durante alguns segundos. Segundos que você se colocava na situação ridícula de sempre sair por cima. Aposto que foi ruim para todos, até mesmo para você que pensa que estava ganhando. Existe então a perfeição enquanto rolo por aqui, a perfeição que agora se alcança enquanto você dorme, enquanto não se exibe. Na verdade se exibe na sua melhor forma, serena.
Não que eu odeie seu jeito, se não gostasse não me arriscaria tanto, não colocaria meu coração no jogo mais idiota que existe. Só que eu prefiro você chique, você nas suas certezas intelectuais, nas suas músicas de Caetano, no seu sorriso natural, e agora no seu sono discreto e bonito. Quando você desce o andar, você desce também o nível, desce e erra os degraus, sem perceber que muitos trejeitos podem ser belos no cinema nacional e não no nosso, digamos, relacionamento.
Sabe o que eu me lembro você enquanto dorme ? Que eu " gosto de ver você no seu ritmo, dona do carnaval " . Ainda vou descobrir qual pilha que se liga quando você sai por aí, qual botão a multidão aperta em você.
Por enquanto aceito sofrer. Aceito dividir e ver que divido. Aceito seu ritmo.
Você é linda.