domingo, 10 de março de 2013

Tautologia feminina

Não gosto muito dessa coisa de tipo. "Não faz meu tipo" ou "não tenho tipo" , são frases impossíveis e na medida em que se necessariamente se anulam deixam todos nós mergulhados num vazio incrível.  Façamos o seguinte: aceitar o vazio e abraçar um tipo de mulher. Falo daquele tipo que enrosca as almas, não compete com outras e treme diante de um imbecil qualquer. Forte demais para ser homem se torna imediatamente mulher. Cava grandes buracos no jardim para fazer com que as flores que cultiva tenham raízes grandes o suficiente para se fixar e ao mesmo tempo se espalhar para além dos limites da cerca. Suas flores crescem firmes e livres, coloridas e venenosas, perfumam e matam. Tem aqueles que se atrevem a entrar no jardim e aqueles que são flores. Esse tipo de mulher prefere aqueles que são flores, mas não é capaz de impedir a entrada daqueles que simplesmente invadem, roubam, pisam na flores. Ou daqueles que plantam mais flores. Ou daqueles que querem um pouco de tudo e acabam por não fazer nada.
Esse tipo de mulher é ao mesmo tempo, muito mais que jardinagem. Transita pelos cantos da cidade, faz estrago no seu próprio coração e acha que conhaque cura. Volta e meia alguém volta, arrependido, com o rabo enroscado. Ela é do tipo que deixa saudades. Que mente. Que simula. Que atua. Que representa a boa moça. No entanto, nem mesmo que a vida fosse um longa ópera o fim poderia ser evitado: a cortina fecha e  a máscara dela cai . A boa moça derrete. Sobra apenas figurino.
Se você não tem tipo, ou se ela não faz seu tipo, lembre-se: essas frases se anulam e fazem esse tipo de mulher surgir e desaparecer. Surgir e desaparecer. Surgir e desaparecer. Num movimento inquietante para ela e para os outros.

sábado, 9 de março de 2013

Carnaval

Quando se precisa de um tempo que não se pode ter fica pesado carregar meus instrumentos. Tento converter tudo aquilo em boa música, tendo escrever novas letras com idéias do passado, tendo construir uma nova ponte entre as coisas, e mais que tudo tento mudar tudo aquilo que me machuca fundo demais. Caminho errante e me surpreendo com as surpresas mais inesperadas. Erro nos planos e sinto que acertei no inesperado. Vai que chega logo o carnaval e tudo fica um pouco um melhor. Poderia pular o natal facilmente, como se fosse uma data inexistente no calendário falso católico. Falso para mim e para todos outros tantos que circundam meu corpo. Acredito assim que a tinta que cobre meu rosto, as curvas que não combinam com meu espelho e a insegurança que lateja apontem para uma certeza: o que começa falso, nunca pode terminar bem. É preciso se sentir livre para ser feliz, livre das próprias dúvidas e inseguranças. Sendo assim nem preciso de instrumentos, muito menos de boa música. Se não puder caminha sem as amarras da insegurança não servirá para mim. Caminho devagar, desvio dos desvios.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Texto para quem tem medo

Nosso tempo não virá. O muito que corri para frente e você para trás. O muito que esperei e você também. O encontro impossível daquilo que resultaria no excesso. Alguns amores não podem existir, poderiam trazer confusões no tempo dos outros. Por isso mesmo o nosso tempo não virá, não será. Não existe encontro para o impossível. Com muito lamento deixo tudo engavetado e aceito suas palavras atrasadas. E sabe do pior? Antes não podia dizer de meu amor pois temia, agora não posso pois não sinto mais. Isso dói mais do que perder, ou não ter. Nosso tempo não existe, não cabe nos segundos de nenhum relógio, não encaixa nos anos de um namoro. Nunca faríamos bodas de nada. Nosso amor está aí o tempo todo, bem além do nosso tempo, perdido no espaço. Assim ficamos livres para outras coisas quaisquer, para outros beijos além. Evitamos o fim dos tempos e a construção de castelos tardios. Melhor crer que nos separamos por um bem maior, do que ter certeza que foi por uma bobagem qualquer. O pior medo que alguém pode sentir é o de se saber feliz.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Aguardo

Tudo uma grande mentira. Eu não guardo nada. Meu perfume é novo e no meu peito não cabe nem meio você. Tudo uma grande confusão. Eu não guardo nada. Estou de peito aberto e nele não cabe nem meio você. Nem meio ninguém. Só quero gente inteira. Gente que ri do que era para chorar, gente que entende minhas meias palavras e meu caminhar. Quero a brancura da pele da menina e nunca mais ter que implorar.
Na bolsa da vida, a bôlsa e a vida, a bolsa ou a vida. Eu não guardo nada. No aguardo a vida vai passando. Eu não guardo, nem aguardo mais. Ela mudaria minha vida. Deixo que o tempo carregue nossas surpresas. A fantasia dessa vez é tão óbvia que cansa, pesa nos meus olhos. Eu não guardo mais nada. Eu prefiro que as coisas fiquem por aí. Sendo assim deixo meus óculos na casa de minha avó. Deixo meus grampos na casa do meu amor. Deixo meus anéis no bar e meu relógio atrás da cama. Lá o tempo passa lentamente. Quero gente que não guarda nada. Até a geladeira fica vazia. É quando não aguardo que ela vem. É quando não guardo que encontro. É quando não preciso mais que a necessidade se impõe. Aquilo que anotamos para lembrar não serve, o melhor a gente nunca esquece. Pega de surpresa, treme o peito, molha as mãos.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Curativo

Não me conta o que quer ouvir e vai caindo da ponte em câmera lenta. Come pouco e depois come muito. Sendo assim não há corpo que aguente. Arrebenta o estômago e explode os pulsos. Compra muito e depois não compra mais nada. Sendo assim não há tempo que dure. Morrendo de todas aquelas doenças da música, cospe nos pés para abrir a ferida. Arranca todas as casquinhas e depois tenta colocar curativo. Sendo assim não há mais nada.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Das Dores é sobrenome

Minha sorte, pela primeira vez maior que a sua, é que aprendi a respirar. Aprendi na faculdade uma técnica para adestrar gente, e consegui tirar alguma coisa viva de tal aprendizado. Sendo assim respirar faz bem, movimenta minha pernas preguiçosas. Todas as vezes que a avalanche da raiva vem, eu respiro. Melhor ainda é respirar quando a onda do retorno passa. A maior mentira que já inventei é a de querer para desquerer. Essa mentira é apenas o momento de respirar, pois é artificial e ao mesmo tempo ajuda a não parar nunca mais. É movimento. É totalmente passageira. Mentira-respiração que cura da raiva e do amor ao mesmo tempo. Um tapa atrás do outro, no rosto. Respiro e não sinto dor. E ainda cuido para que mais tarde não deixe dores pós porrada. Dorzinha chata que com massagem piora e com remédio disfarça. Cuido agora. Mentira-respiração com bolsa de gelo. Tem gente que parte por não saber ficar e gente que fica por não saber partir. Que Deus perdoe e que Deus inverta só de vingança.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

E se fosse mentira?

músculo perdido dentro de uma caixa apertada. pulsando até não caber mais no espaço. debatendo-se no pouco espaço que lhe foi destinado. impedindo a vida de fluir. o dia se arrasta. é a vontade de existir. músculo pulsando até explodir. cabeça sonhando. músculo esperando a hora de falhar. pouco tempo para decidir. é melhor decidir logo. decidido. é melhor não se ter nada. das tentativas só o fracasso. um tempo para pensar. caminhos pulsantes como o músculo. cabe dentro de mim. tum tum tum. a historia da menina que explodiu por amar demais.

meus pés. aterrorizando os rapazes, facilitando para as meninas. olha que perigo é ser desse jeito todo. ai que perigo é dizer sim! mais ainda tentar. reflete nas consequências de se estar só. coragem demais atrapalha. vamos despencar. você não merece meus apelos. agora se sabe de outro tempo. por mais que o sol invada meu espaço, eu não acordo. deixando a poeira corroer as letras que prefiro ignorar. minha doença não tem cura. hoje o que dói é meu ouvido direito. caminho na direção oposta. não passa a dor nem o tempo.

você disse que viria. ele disse que queria mais. e pior ainda aquele que disse que iríamos conseguir. façam o favor de cortar fora a língua. falar menos é melhor do que falar demais. correr por entre o espaço da caixa apertada. faço minhas curvas para deixar o coração bater. mentira boa é aquela que a gente já sabia que ia descobrir mas preferiu enganar o peito. caminha, volta, fica com a morena mesmo que não queira. pode ser que seja melhor.
músculo perdido dentro de uma caixa apertada. pulsando até não caber mais no espaço. debatendo-se no pouco espaço que lhe foi destinado. impedindo a vida de fluir. o dia se arrasta. é a vontade de existir. músculo pulsando até explodir. cabeça sonhando. músculo esperando a hora de falhar. pouco tempo para decidir. é melhor decidir logo. decidido. é melhor não se ter nada. das tentativas só o fracasso. um tempo para pensar. caminhos pulsantes como o músculo. cabe dentro de mim. tum tum tum. a historia da menina que explodiu por amar demais.

meus pés. aterrorizando os rapazes, facilitando para as meninas. olha que perigo é ser desse jeito todo. ai que perigo é dizer sim! mais ainda tentar. reflete nas consequências de se estar só. coragem demais atrapalha. vamos despencar. você não merece meus apelos. agora se sabe de outro tempo. por mais que o sol invada meu espaço, eu não acordo. deixando a poeira corroer as letras que prefiro ignorar. minha doença não tem cura. hoje o que dói é meu ouvido direito. caminho na direção oposta. não passa a dor nem o tempo.

você disse que viria. ele disse que queria mais. e pior ainda aquele que disse que iríamos conseguir. façam o favor de cortar fora a língua. falar menos é melhor do que falar demais. correr por entre o espaço da caixa apertada. faço minhas curvas para deixar o coração bater. mentira boa é aquela que a gente já sabia que ia descobrir mas preferiu enganar o peito. caminha, volta, fica com a morena mesmo que não queira. pode ser que seja melhor.

sábado, 19 de janeiro de 2013

Presente

Retomo alguns hábitos. Beijar o gato, acender um cheiro, comer um pouco e usar mascavo. A vela derreteu tão devagar que tive bastante tempo para pensar. Errei tão feio da última vez que agora já sei o que é não amar. Apertei o gatilho, sufoquei o passado e ainda não sei dizer não, mesmo não querendo. É como comer comida fria e sentir muito enjoo. É como vomitar de tanto nervoso. É como ter passado a vida toda organizando tudo, sem realizar. Como três pratos frios até chegar ao quente. Minto e erro duas vezes até conseguir reparar em que momento repito as mentiras e caminho outra vez para o engano. Faço carinho no gato, ouço sua música na cabeça e prefiro outra banda. Hoje vou descer uns vinte goles, vou brindar a minha felicidade e as coisas que vou fazer sem me organizar. Quero poucos e todos. Todos os poucos que falam grego. Quero que meu telefone toque para pensar política meio a palavrões. Quero homens e mulheres. Todos com apartamento. 

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

A volta

Me convidei para entrar na sua festa. Que maldição esse medo que sentem de mim. Devo ter herdado de alguma parente queimada na fogueira. Os que arriscam, afundam. Bem, sua festa ainda não acabou. Falta você mudar logo de rumo. Pega logo o barco do passado e arrisca um pouco mais. Até eu tenho saudade daquela sua versão que não tive tempo de acompanhar. Abre logo esse zíper. Solta logo o todo tolo. Dá uma risada daquelas que deixam as meninas sem graça. Vou substituir suas palavras sérias pelas  minhas pornográficas e depois fazer propaganda da nossa pele para o espelho grudado na porta do seu armário. Corre do destino de revista. Corre do futuro seguro. Corre para cidade que me indicou. Também adorei. Vou estar por lá quando você mais esperar. Não precisa mais fingir seriedade para me provocar, não precisa mais chegar devagar. Vem chutando a porta. A minha e a sua. Salva nossas vidas e solta a voz. Aumenta seu tom que eu diminuo o meu. Salva nossos passos e nossas letras. Acelera meu peito mais um vez. O seu acelera também. Volta a dar meia volta. Pode me dar uma volta. Pode me dar duas voltas. Daremos nossas voltas. Juntos e separados. Assim sim. De verdade. Assim nunca vamos parar de embaçar o espelho do armário, o vidro do carro e a cortina da banheira. O céu despenca no futuro. O som acelera e finalmente chegamos no ponto que pretendíamos. Aí estamos prontos para recomeçar. Vende logo essa família de revista de bebê. Cancela a viagem sem graça. Abre os olhos, as pernas, sobe o tom de novo. Ainda dá tempo de rever aquele encontro certeiro. Revolta, reajusta, rebola. Um canto para nós dois, já deveria ter encontrado. Eu espero. 

domingo, 13 de janeiro de 2013

Caminho pelo corredor

O barulho da lâmina tocando o osso incomoda mais do que a dor. É que demorou tanto para chegar nos ossos que não dói mais. No entanto, o barulho me desperta e faz lembrar que ainda corta. Ninguém chora uma morte o tempo todo, mas pode ser que chore para sempre. Sentir a morte pressiona o peito, empurra minhas duas metades. Corrói meus dentes, impulsiona minhas mentiras, me faz avançar no que me destrói.Tem muitas palavras que eu não sei pronunciar. 
O barulho da lâmina cortando as frutas. O barulho da lâmina que vem da cozinha. São pedaços para se juntar. E ainda que perfeitamente recolocados irão apodrecer. Não há costura ou perfeição que reconstruía as antigas frutas. Porém não se preocupem. Despedaçadas ou não, apodreceriam do mesmo jeito. É aí que a lâmina pega do osso e não corta mais. Ossos fortes, lâmina gasta. O barulho da festa diminuiu, o meu olhar sossegou. Foi só um fôlego que tomamos na superfície. Nossas vidas são assim mesmo, tentando respirar o tempo todo.
O barulho da lâmina sendo arrastada pelas paredes. Tentando marcar aquilo que pode ser pintado. De cores ainda mais linda. Arranhando, marcando, deixando algumas letras escritas. O próprio tempo se encarregou de desgastar o resto da tinta da parede, deixando tudo uniforme. O tempo dos sonhos é exatamente aquele que precisa acabar, se a gente não acorda passa a ser realidade.Aí é só bobagem e barulho. 
Capto pouco no final. O suficiente para saber que ainda é a mesma coisa. A gaveta que tento abrir tem uma mola que tensiona para fechar. Ninguém sabe o que aquela mola faz ali ou quem colocou ou porque colocou. Pobre gaveta fechada. Pobre gaveta tensionada. Tão linda, de puxadores valiosos. E o pior, está cheia. Quem tensiona para abrir, por vezes consegue colocar alguma coisa lá dentro. O esforço para abrir é tão grande que todo mundo escolhe guardar uma coisa que gosta muito. O tempo tem enferrujado a mola.
Capto tudo. Quebro essa gaveta. Quebro meus dedos tentando deixar ela aberta. É assim que a lâmina corta a primeira camada de pele, tentando aliviar a dor dos dedos quebrados. Deixo na gaveta, pedaços dos dedos amputados pela força da mola. Capto o rapto dos meus dedos. Maldita gaveta cheia de pontas de dedos. A lâmina quebra ao chegar no osso.

sábado, 5 de janeiro de 2013

dancing. dancing.

Pensei diversas vezes em mentir. Seria assim: faria o que me desse vontade, afinal sou rainha desse mundo, e depois eu mentiria, como uma criança de cinco anos que acredita na própria mentira. Que bobagem. Faria isso como última tentativa, já não tão desejada, de entender o que se passa. Mais bobagem. Não há o que entender, brilhantemente me contaram que se algo não está livre para uma coisa, não está livre pra nada. Ou se é livre, ou não se é.
As resoluções se mostram, dançam bem na minha frente. A febre e a coceira podem tentar me cegar e minha mão pode quase rachar de  tanto ressecar. Não importa mais. Para mim os ímpares interessam muito mais. Sem tentar voltar ao que pareceu ideal, sem tentar ter ideal de porra nenhuma. Quero mais é que as mãos ressequem de solidão e que o céu seja todos os dias bem azul. Quero mais é que vocês aprendam a não mentir. E por outros lado que elas não troquem a mentira pelo amor eterno. Fica mais fácil.
As pontas dos seus dedos estão queimadas e não acho mais graça nessa insegurança toda. Patéticas conversas fundamentais foram perdidas nas letras escritas, privadas de olhar. Se dois eram imaturos, agora é apenas um. As pontas de todos os dedos estão queimadas. Outros dedos feridos pela aliança. Queimar seus dedos é pouco. Pouco não serve mais. Nem de um, nem dos outros mil.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Todos os tiros

É quando bate sol que reflete. Atravessa o tecido e a porta de vidro, bate no espelho do fundo e aí sim todos os bichinhos de cristal refletem minha única riqueza. E quem diria, vinda do lixo. Cheios de charme meus bichinhos tomam chá sem olhos, em xícaras sem asa,  bracinhos lascados. Sempre quis uma dessas, quem diria! Combina com todo o pouco resto, com as xícaras amarelo-marrom-transparente herdadas com amor.Quando bate o sol é que esquenta toda minha certeza, me cega. Agulha arranha, gira o tempo.
Só segue o silêncio musicado. Coloco, sem vergonha, uma trilha sonora para a manhã, na realidade, gosto muito de trilhasonar o dia , pois de silêncio sucumbo nas madrugadas, luzes borbulhantes. Ontem assisti sem som e sem par à um pornô brasileiro, bom de tanto que dublagem não sincroniza

Sucumbe-se de excesso. Construir, usando o que nos falta torna mais sereno nosso caminho.

Atiro pela porta. Atiro na porta. Atiro-me. Há tiro. Há pouco. Esburaco minha alma de tanto dizer. Há mais que tiro. Deixo o excesso e fico presa no chão. 

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Comida em cena

Cena 1
Cinco jovens devoram, engolem, saboreando uma comida feita por um restaurante da zona sul. Não era um dos restaurantes mais chiques, mas a comida imitava comida do dia-a-dia e tinha nome de gente famosa no cardápio. Coisa fina para quem é só classe média, coisa pobre para os gigantes do dólar. Cinco jovens agachados, no meio da rua, devoram, engolem e sem saborear matam a fome. De longe lembram bichos dividindo a presa. A comida que virou lixo. O lixo que virou comida. Cinco jovens, todos negros, imundos e com certeza para muitos, assustadores, sinônimo de perigo.

Cena 2
Eles estão soterrados. Acabaram de mudar de apartamento, pós primeira vez, sei. Quando a entrega chegou, sufocaram. O que já tinham em casa poderia até ser suficiente, mas quem é que resiste a uma prataria linda nos dias de hoje? A comida fica mais bonita, afinal comemos com os olhos. Logo virão as crianças e o acúmulo de capital é fundamental, desde sempre. O casal tropeça no excessos. Ops, excessos não! Necessidade. Quem não precisa dos eletros mais eletros dos últimos segundos? Em seis meses eletros já são coisa do seu passado desatualizado! Hoje em dia tudo é muito rápido. Acumular é fundamental, para isso serve Gramacho. Lá as crianças não comem com os olhos, comem com a fome.



sexta-feira, 2 de março de 2012

M.

Começamos a morrer quando nascemos. Mentira. Cada um sabe a hora que começa a morrer, começa a desintegrar, desistir, sumir, se perder. Na covardia , espera-se a morte chegar na surpresa de uma doença, na rapidez de um acidente, ou na eternidade de tornar-se velho. Desde o momento que se reconhece bicho de pouca luz, pedaço pequeno que não vê a si mesmo, limitado de suas vontades, pouco chegado a companhia de seres que julga inferiores. Encontra-se pedaço de coisa qualquer que não concentra, não cumpre com metas, não ama, não se vê, não sabe nada. Qualquer coisa feia, suja e enganada de si mesmo. Mentindo come as letras, pula os pontos e não sabe escrever. Carente que não sabe amar. O tempo esmagado pela mentira de quem deveria ter dito verdade, carente de qualquer coisa que nunca teve e não provou nem mesmo de forma amarga. Morta de tudo, mortos de pouca existencia. Caminhantes de pouca esperança. Cansados de existir e covardes para fugir daqui. Não me vejo e não vejo mais ninguém. A morte chega, chega, chega e dá sensação de qualquer outra coisa que não sabemos definir. Escrita, corpo. Espelho que reflete o que não queria ver. Vou deixar que chegue na surpresa, ou na rapidez. Aproveitando a dor de sentir chegar a solução.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Falta

Enquanto congelo acompanho o cor dos meus dedos mudar. Meus pensamentos tentam reescrever a minha história como se fosse possível reunir pedaços perdidos. Percebo o que me angustia, e talvez tenha angustiado a vida toda. Não sei onde começa, não separado o que me contaram do que realmente sei de mim. Ouço minha voz como um eco, quem fala de mim são os outros. E agora, completamente sozinha nessa imensidão de neve não há ninguém para me lembrar, para dizer se está tudo bem ou se na realidade vou morrer. Canso de tentar juntar o que não tem encaixe, apenas se sobrepõe em um movimento infinito, sem começo e sem fim. Minha história não cabe em uma linha. A voz que chamo de pensamento começa a me confundir e preciso falar alto para não enlouquecer, preciso ouvir quem eu sou. Não funciona; eco. Fixo os olhos na cor dos meus dedos, imagino que meu nariz vá ficar da mesma forma, acho que não o sinto mais. Me pergunto: se for queimando das pontas para o centro e assim matando partes de mim, o que existirá no meio do processo? Queria poder durar até o momento no qual todo meu corpo escurecesse, até que sobrasse o último ml de sangue e fibra de carne. Queria assim poder saber o que some enquanto morre o corpo, até quando seria eu. Onde está minha alma?

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Ciranda

Havia algo da morte que foi deixado lado, lembrando por acaso, ou não tão acaso assim, da inscrição que ele faria e não fez. Perdeu a data, como alguém que diz o que não disse. Na verdade ele não queria. E o que queria? Não dizia? Queria o que sempre negava.
Entrando na história. É quando toca a música na qual dançam os mentirosos: em pares movimentos regrados não permitem observar onde começa, onde aumenta e onde termina a mentira na qual vivemos. Forma-se uma ciranda e o movimento é único, uma grande massa coordenada, dançando. Dupla-se dançando. Movimento dos mentirosos. Inventa-se o mundo mais próximo do suportável ou desiste-se dele. Ninguém fica de fora.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Mais uma dos novos tempos

Sofria de amputação.
Uma nova doença no mercado médico farmaceutico.
Uma nova maneira de sofrer da alma e do corpo. Inseparáveis, indivisíveis.
Não se sabe porque leva este nome. Nada é retirado, extraído.
Não controla dor por retirar parte alguma.
Amputações, doença da impossibilidade de ver algo além de si.
Alienados pela rotina. Sufocados pela necessidade do primeiro lugar.
Estamos todos amputados.

Sofremos disso e de mais um pouco.
Matamos crianças achando que fazemos bem a elas.
Rotina, horário, médicos, dietas, futuro advogado.
Cara de empresário. Raciocínio de engenheiro. Nasceu pra que?
Amputados desde criança. Geneticamente alterados para sermos alienados.
Trabalhadores.
Dos mais abastados aos excluídos. Todos robôs de materiais diferentes.
Produzidos em série.

Case-se logo.
Tenha filhos.
Coma pouco.
Leia menos.
Veja mais tv.
Acredite em pesquisas.
Não coma azeite.
Faça planilha.
Seja alguém.
Seja bem sucedido.

Estava indivisivelmente amputada. Seus filhos geneticamente amputados. Sua beleza decapitada. Nosso tempo esquadrinhado. Meus filhos completamente limpos. Prato pouco e colorido para todo mundo. Controle remoto, controle.

sábado, 24 de setembro de 2011

AMOS

E para que se tem tempo? Para perder querendo ganhar o que não existe, um futuro que não existe em nenhum espaço que não o de desejá-lo. Tenho visto a tristeza contínua em todos aqueles que acreditam que pagar as contas no final do mês é sua maior alegria. E para os mais abastados a felicidade é pagar tudo que for mais caro porque é melhor, ou para não sobrar muito dinheiro. Digo isso sem hipocrisia ou inocencia rebelde. As pessoas não estão felizes, eu também não. Ninguém quer o mais difícil, o mais demorado, o que não é dado. Querem o imediato, o "prajá". Na velocidade que temos, perdemos. De amor, de valor, de beleza, ninguém quer saber. Para onde foi a vontade de ser algo que não podemos comprar, mesmo que por um segundo. E antes que venham aqueles que não entedem, eu gasto dinheiro, eu uso dinheiro, eu vou ao shopping, mas sei que não é disso que se trata a vida. É no shopping que compramos nossos uniformes, nos uniformizamos de diversidade. Nos tatuamos, nos furamos, escrevemos em blogs, comemos yogurt e japonês. Repito, "amos". Nós. E é sem saber o que fazer que me proponho ao conhecimento, que voto pela cultura, pela arte, pela música. Voto no amor, por mais clichê que isso seja. Estou cansada de reparar no olhar perdido de quem trabalha com movimentos automáticos, cansada de ver escravos pagos com salários baixos. Amputada pelo rumo irreversível dessa desigualdade. Cansada também da hipocrisia dos mais abastados, da falta de vergonha que algumas pessoas tem quando abrem a boca para falar o que pensam em botecos de luxo. Já cansei tão nova, e já entendi que não existe lugar onde possa me esconder, e mesmo se pudesse, tudo isso não deixaria de existir.



sábado, 2 de julho de 2011

Auto-auto-ajuda

Acorda para as coisas que você sente e pára de fingir que não sabe sentir. Acredita no primeiro caminho que aparecer na sua frente. Olha seu lado ao avesso. Sente o cheiro de flores que parecem sair do asfalto. Não se engane para criar um romance. Não invente romance para se enganar.
É muito melhor quando a gente relamente sorri. É muito melhor quando a gente fala sem pensar muito sobre os julgamentos. Para agradar alguém, não devemos fazer esforço. É melhor enganar um coração que sentiu, um coração que viveu. Está morta? Então morre. E caso a vida mande uma nova chance, não agarra de primeira. Vai voltar melhor ainda.