quinta-feira, 25 de abril de 2013

Olhos perdidos/ Peito vazio.

Para mim e para você: cama de casal.
Para nós dois: risadas sem fim.
Refúgio no calor. Risadas de doer a barriga. Carregamento de besteiras. Todos os ouvidos. Novidade. Graça do acontecimento. Final infeliz.
Para mim: saudade.
Para você: mudança.
Para nós: um nó.
Curiosidade. Tagarelice. Encontro. Para quem?
Para nós: 3 dias de nada. Cama de casal. Biscoito. Cama de casal. Fotos.
Você não sabe fitar e por isso vou embora.

Dois tempos

Desordem era minha palavra de ordem. Eu não cabia dentro do meu próprio peito quando via a rapaziada chegar. Eu suava frio e palpitava quando chegava a hora de brincar. Estudar, voltar, brincar e ver a noite chegar. Eu tremia por dentro quando sentia meus pés no cimento, meus dedos ensopados de lama e meu peito molhado de suor e poeira. Chorava como criança que era quando o castigo era severo. Trocava o pé de chinelo, pé direto no chinelo esquerdo e pé esquerdo no chinelo direito. Morria de rir. Chorava com a dor de perder a cabeça do dedão. Comia com as mãos e seguia o mestre. Como era bom ver a molecada correr, que bom era sentir o frio na barriga que dá na hora do lanche. Fechava os olhos e desejava fundo bolo de milho e café com leite para todos os amigos. Às vezes sim, outras não. Como eram bons os sintomas de ser feliz.

Corríamos de um lado para outro e acreditávamos nas histórias de meu pai. Perdi meu pai logo cedo e dei um bom lugar pro vazio em meu peito. Era o lugar do meu pai. Perdi muito amor com esse vazio. Não faz muito tempo preenchi com o pai que me tornei. Meus moleques correm para todos os lados. Que tarefa mais esquisita essa de ser pai. Deixo comer isso, proíbo aquilo. Deixo correr ali, proíbo aqui. Qual a escola? Devem fazer inglês? Que tarefa ingrata. Que delícia é viver minha molecagem de outro ângulo. Moçada, todo mundo pra rua! Moçada, olha o livro que papai comprou: é Manoel de Barros. Dá um beijo aqui no papai. Como são bons os sintomas da dúvida. 

Suar frio, palpitar, tremer, escorrer, correr, ir, voltar, rezar, seguir, implorar, sonhar, criar, desejar, trocar, preencher o vazio com meu pai. Preencher meu vazio sendo pai. Ser criança e deixar de ser como uma tarefa contínua de quem assume o papel de ser adulto, mas não quer morrer de tédio. 

terça-feira, 9 de abril de 2013

Pequeno relato de uma grande vivência

Eles corriam faceiros sem se dar conta da diferença na cor de nossas peles. Subiam em árvores, caçavam caranguejos e faziam desenhos com lápis de cor. Pés no chão de barro, mergulho no mangue sujo, ritual religioso e cachimbo na boca. O que me disseram é que lá eles não mentem. Guarani até os cinco anos. Verdade no peito para sempre. Carinhosos não reconheciam em nós inimigos. Que talvez sejamos, ou tenhamos sido. O que do meu sangue é mais europeu do que índio?
Como são lindas as crianças de lá. O recorte em suas roupas industrializadas dando ar de indiozinho. A cor marrom brilhosa de suas peles. Os cabelo que escorre e pesa. O carinho gratuito. Não somos inimigos. Não tenho 24 anos, tenho mais de 500. E ainda assim não somos inimigos.
Crianças com cachimbo. Mães de quatorze anos. Crianças com pés no chão. Ritual noturno. Ausência de luz. Pegamos o barco, atravessamos pro outro lado. Comemos peixe, dormimos no hotel, brigamos, amamos, matamos as saudades, conhecemos gente nova e seguimos a vida. Não sei se somos mais índios ou mais europeus. Não sei se dá pra escolher. Não sei se quero escolher. Se devo escolher. Há um lugar onde não há motivo para mentir, ou aquilo que é mentira não se qualifica como tal.
Não povo não civilizado. Há povos diferentes.


domingo, 7 de abril de 2013

seguindo o seguir

seguro o verso, engulo a rima, sinto saudades, prendo o choro, disfarço a farsa, perco o chão, entorto o certo, desvio a vida, acabo com rumo, ignoro a felicidade, encaro passado, admiro o mundo, arrumo um amante, odeio tudo, caminho lentamente, invento a novidade, ignoro o amor, reconheço o erro, assumo as responsabilidades, coço os dedos.
morro de saudades, penso no futuro, admiro os casais, reconheço a felicidade, aprecio a unidade, escorro por entre a nova fase.
temo o fim, apresento o novo, sonho com dias melhores.
sinto saudades, alongo o tempo.
espero paciente.

domingo, 31 de março de 2013

Do lado escuro da vida

Do outro lado do mundo as coisas pegam fogo, explodem e se destroem em ódio e dor. Do meu lado as flores temem não nascer nunca mais e o fato da terra estar seca me paralisa. Descobrir que a água com a qual reguei as plantas fica guardada nas veias da folhas não me acalma a alma. Não posso ver o liquido correr como sangue e acredito que minhas plantas estejam sempre morrendo. Lidar com ódio parece mais fácil do que com amor. Lidar com o tempo. Lidar com aquilo que faz reboliço no peito. Dar razão para o que se sente pode salvar um coração, nunca dois. Adeus enjoada. A gente resolve um amor aqui, assiste outro nascer ali, perde o fio que conduz nossa própria vida. Se eu pudesse virar o mundo faria pegar fogo por aqui. Troco o amor que desconheço pelo ódio indomável. 
Saber se entregar para qualquer um é mais fácil do que se entregar para apenas um. Ser livre também não é fácil. Caminhar pelos caminhos tortos da certeza de antes, acertar os ponteiros da minha própria vida. O tempo vai passando. As coisas mudam. E mudam mesmo. O amor finalmente acaba e você sente a dor do desencanto. O amor finalmente volta e você sente a dor do desencanto. O amor que nunca teve chance de nascer deixa um gosto amargo de ser realmente amor. Nunca aconteceu e foi amor. Ser livre é mais difícil do que ser só. 
Será preciso então virar o mundo de cabeça para baixo. Será preciso aceitar o que não lhe pertence. Será preciso caminhar com sapato apertado. Os dedos vão sangrar, vão doer e talvez os passos sejam mais lentos. Será preciso aceitar os dedos machucados. Será preciso esperar que o novo sapato não substitua,apenas encaixe como se o outro nunca tivesse existido. Vai ser difícil deixar passar, mas não há outra saída. Adeus enjoada. O tempo é uma desculpa boa. Depois que o coração se acalma dizemos que foi o tempo e até esquecemos o que passou. Vai ser difícil. Já está difícil. O amor não pede licença para entrar, pra sair ou pra voltar. Já foi. Já está difícil.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Vento

Será que toda vez que ele se posiciona na frente da janela e pensa na vida, consegue fazer os pensamentos irem embora com o vento? Mesmo sem essa certeza é ir para janela o que faz sempre que tudo pesa demais para ser pensado na cama. A profissão que escolheu, o amor da sua vida ter aparecido justamente na sua vida, o cigarro que não larga e não quer largar, a barriguinha fora dos padrões, as certezas depositadas no futuro incerto. Ele sente o peito apertar e a dor sair no cantarolar de uma música com letra forte. Os pensamentos na janela atravessam as verdades pessoais e embarcam em suas escolhas políticas, suas decisões de todo dia, sua ética estudada e revista, e aquela coisa que ele não sabe como surgiu, quem escolheu ou quem moldou. Eles apenas é assim. Ele sofre com as dores e doenças que se espalham pelo mundo, ele sofre com do movimentos perversos do capital, ele sofre com a obrigação de se calar toda vez que se sente impotente ou em dúvida. Sempre que vai pra janela sabe que a situação tá preta. Nele e no mundo. O que pra ele é uma coisa só. Não sabe mais o que fazer, sai da janela e vai para o quarto. Dorme e acorda por obrigação. Viveria na janela se não sentisse um impulso transformador em vários momentos. Venta na janela, venta no trabalho, venta na viagem que não fez, venta nas certezas do amor, venta, venta, venta. venta. Ele não consegue decidir se o vento entorta ou conserta. Se o vento leva ou se o vento traz. Bom seria saber. Bom seria se o vento transformasse. Se o vento soubesse, se janela fechasse, se ele pudesse viver outra vez, outra vez, outra vez.

domingo, 24 de março de 2013

Casa de campo

Talvez o bolo fique seco, mas cheira muito bem. Se for para um, será de laranja. Se for para outro, de brigadeiro. Se for mais além será de coco. Se for para ela será de avelã. Se for para quem nunca será, castanha do pará. As vigas e escadas são de madeira. O cheiro da madeira se confunde com o cheiro do bolo. O gato faz charme. Se for de um, será só um gato. Se for de outro, dois gatos. Se for mais para trás, uns seis gatos. Se for ela, não será gato. Se for quem nunca será, um gato e um cachorro. O sofá pode ser no chão. Pode ser importado. Pode ser vazio. Pode ser quente. Pode ser furado. Pode ser cheio de criança. Pode ser cheio de livros. Pode ser apenas uma poltrona. Só cabendo um. Se for ele, se for ela, se for eu, se formos nós. Os quadros são antigos. Se for de um, de outro ou mais além, será bem colorido. Se for dela, será importado. Pode ser dança, silêncio ou pode não ter mais quadro nenhum. Talvez o bolo queime. Se for um, vai raspar o queimado e comer. Se for outro, vai comer com queimado. Se for quem nunca será, não vai comer. O chão é gelado e as paredes são de pedra. Se for um vai cavar. Se for outro vai deitar. Se for antigo vai partir e voltar, partir e voltar. E para não dizer daquele não nunca seria, se fosse esse colocaria um tapete para encher nossa casa de poeira e esconder as mazelas de uma insistência infundada. Talvez o som não funcione. Talvez toque as melhores músicas do encontro de quem gosta das mesmas coisas. Talvez nunca seja ela, essa já era. Pior do que nunca seria, nunca foi. Talvez tenha mais som do que letras. Ou melhor ainda, tem a serenidade e paz de quem sabe cantar de olhos fechados e ainda assim estar olhando para mim e não para si mesmo. Quase me esqueci desse trovador. Se for o trovador a paz vai reinar por alguns segundos, sua alma é mais magoada do que tenta aparentar. E se não for ninguém, o silêncio vai reinar. O sofá vai esquentar. O quarto habitar muitas histórias de amor. E o passado se tranquilizar como uma história justa de uma menina entregue as possibilidades das mentiras/verdades do amor.

terça-feira, 19 de março de 2013

Espelho duplo

Foi um soco sem medida. Minha imagem se despedaçou. Tentei colar minhas partes com as suas que cortei de um retrato. Não funcionou. Manchou do sangue que escorria dos meus dedos e das lágrimas que escorriam da minha saudade. Dedo quase amputado que apontava uma direção. A lentidão do tempo, a pressa dos anos, tudo isso nos fez tão bem. Longe e perto. O tempo nos esmagou.

quinta-feira, 14 de março de 2013

Das cinzas coração

Apodrecendo. Primeiro foram meus dedos e não pude mais escrever. Depois meus cabelos se dissolviam como pó. Se não fosse tão triste morrer em vida eu diria que frente ao espelho o cabelo virando pó é um bonito espetáculo. Meus pulmões já eram podres antes mesmo do meu pós morte. Entendam que eu não estava morrendo, morri e comecei a putrefação. Tudo teoricamente em vida. Meus lábios escureceram em velocidade desconhecida pela biologia humana. Me calei para não sentir vergonha todas as vezes que um pedaço podre de mucosa, ou um dente estragado caíssem na frente de algum conhecido da rua. Podia sentir meu coração parado, lutando para dar uma ou duas batidas por dia. Outro fenômeno que acompanhou minha morte viva foi o odor repulsivo. Odor característico daqueles que acompanham o fim dos encontros sinceros. Não existe nenhum fato que comprove o início da morte ou que aponte para as causas exatas do meu desmoronamento. Acreditei que se tratava de um castigo dado em função de minhas ausências. Talvez a poeira acumulada do meu apartamento ou os tiros disparados contra minha família tenham colaborado. Meus passos ficaram lentos por não ter mais carne nos pés, o odor reforçou os encontros falsos, o coração escureceu como um pulmão fumante e ainda assim não havia nenhuma cova para mim. Me mudei para um cemitério e fiz amigos. A ciência desconhece as doenças do amor e pude saber disso diante dos mortos com vida que encontrei tentando caminhar pelos corredores do cemitério. Calados por não termos lábios, nos entendiamos no olhar. Curiosamente nossos olhos permaneceram intactos, nem um pequeno verme ousou consumir o brilho triste que resta para os desiludidos. Ali não houve nenhum suicídio presumido e nem um assassinato. Concluo que tenha sido coisa da vida mesmo, coisa de quem se dedica demais ao impossível do amor. Desiludidos de amores que batem na aorta. Para esses a vida reservou um apodrecer tão lento que chega a se confundir com a eternidade.

domingo, 10 de março de 2013

Tautologia feminina

Não gosto muito dessa coisa de tipo. "Não faz meu tipo" ou "não tenho tipo" , são frases impossíveis e na medida em que se necessariamente se anulam deixam todos nós mergulhados num vazio incrível.  Façamos o seguinte: aceitar o vazio e abraçar um tipo de mulher. Falo daquele tipo que enrosca as almas, não compete com outras e treme diante de um imbecil qualquer. Forte demais para ser homem se torna imediatamente mulher. Cava grandes buracos no jardim para fazer com que as flores que cultiva tenham raízes grandes o suficiente para se fixar e ao mesmo tempo se espalhar para além dos limites da cerca. Suas flores crescem firmes e livres, coloridas e venenosas, perfumam e matam. Tem aqueles que se atrevem a entrar no jardim e aqueles que são flores. Esse tipo de mulher prefere aqueles que são flores, mas não é capaz de impedir a entrada daqueles que simplesmente invadem, roubam, pisam na flores. Ou daqueles que plantam mais flores. Ou daqueles que querem um pouco de tudo e acabam por não fazer nada.
Esse tipo de mulher é ao mesmo tempo, muito mais que jardinagem. Transita pelos cantos da cidade, faz estrago no seu próprio coração e acha que conhaque cura. Volta e meia alguém volta, arrependido, com o rabo enroscado. Ela é do tipo que deixa saudades. Que mente. Que simula. Que atua. Que representa a boa moça. No entanto, nem mesmo que a vida fosse um longa ópera o fim poderia ser evitado: a cortina fecha e  a máscara dela cai . A boa moça derrete. Sobra apenas figurino.
Se você não tem tipo, ou se ela não faz seu tipo, lembre-se: essas frases se anulam e fazem esse tipo de mulher surgir e desaparecer. Surgir e desaparecer. Surgir e desaparecer. Num movimento inquietante para ela e para os outros.

sábado, 9 de março de 2013

Carnaval

Quando se precisa de um tempo que não se pode ter fica pesado carregar meus instrumentos. Tento converter tudo aquilo em boa música, tendo escrever novas letras com idéias do passado, tendo construir uma nova ponte entre as coisas, e mais que tudo tento mudar tudo aquilo que me machuca fundo demais. Caminho errante e me surpreendo com as surpresas mais inesperadas. Erro nos planos e sinto que acertei no inesperado. Vai que chega logo o carnaval e tudo fica um pouco um melhor. Poderia pular o natal facilmente, como se fosse uma data inexistente no calendário falso católico. Falso para mim e para todos outros tantos que circundam meu corpo. Acredito assim que a tinta que cobre meu rosto, as curvas que não combinam com meu espelho e a insegurança que lateja apontem para uma certeza: o que começa falso, nunca pode terminar bem. É preciso se sentir livre para ser feliz, livre das próprias dúvidas e inseguranças. Sendo assim nem preciso de instrumentos, muito menos de boa música. Se não puder caminha sem as amarras da insegurança não servirá para mim. Caminho devagar, desvio dos desvios.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Texto para quem tem medo

Nosso tempo não virá. O muito que corri para frente e você para trás. O muito que esperei e você também. O encontro impossível daquilo que resultaria no excesso. Alguns amores não podem existir, poderiam trazer confusões no tempo dos outros. Por isso mesmo o nosso tempo não virá, não será. Não existe encontro para o impossível. Com muito lamento deixo tudo engavetado e aceito suas palavras atrasadas. E sabe do pior? Antes não podia dizer de meu amor pois temia, agora não posso pois não sinto mais. Isso dói mais do que perder, ou não ter. Nosso tempo não existe, não cabe nos segundos de nenhum relógio, não encaixa nos anos de um namoro. Nunca faríamos bodas de nada. Nosso amor está aí o tempo todo, bem além do nosso tempo, perdido no espaço. Assim ficamos livres para outras coisas quaisquer, para outros beijos além. Evitamos o fim dos tempos e a construção de castelos tardios. Melhor crer que nos separamos por um bem maior, do que ter certeza que foi por uma bobagem qualquer. O pior medo que alguém pode sentir é o de se saber feliz.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Aguardo

Tudo uma grande mentira. Eu não guardo nada. Meu perfume é novo e no meu peito não cabe nem meio você. Tudo uma grande confusão. Eu não guardo nada. Estou de peito aberto e nele não cabe nem meio você. Nem meio ninguém. Só quero gente inteira. Gente que ri do que era para chorar, gente que entende minhas meias palavras e meu caminhar. Quero a brancura da pele da menina e nunca mais ter que implorar.
Na bolsa da vida, a bôlsa e a vida, a bolsa ou a vida. Eu não guardo nada. No aguardo a vida vai passando. Eu não guardo, nem aguardo mais. Ela mudaria minha vida. Deixo que o tempo carregue nossas surpresas. A fantasia dessa vez é tão óbvia que cansa, pesa nos meus olhos. Eu não guardo mais nada. Eu prefiro que as coisas fiquem por aí. Sendo assim deixo meus óculos na casa de minha avó. Deixo meus grampos na casa do meu amor. Deixo meus anéis no bar e meu relógio atrás da cama. Lá o tempo passa lentamente. Quero gente que não guarda nada. Até a geladeira fica vazia. É quando não aguardo que ela vem. É quando não guardo que encontro. É quando não preciso mais que a necessidade se impõe. Aquilo que anotamos para lembrar não serve, o melhor a gente nunca esquece. Pega de surpresa, treme o peito, molha as mãos.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Curativo

Não me conta o que quer ouvir e vai caindo da ponte em câmera lenta. Come pouco e depois come muito. Sendo assim não há corpo que aguente. Arrebenta o estômago e explode os pulsos. Compra muito e depois não compra mais nada. Sendo assim não há tempo que dure. Morrendo de todas aquelas doenças da música, cospe nos pés para abrir a ferida. Arranca todas as casquinhas e depois tenta colocar curativo. Sendo assim não há mais nada.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Das Dores é sobrenome

Minha sorte, pela primeira vez maior que a sua, é que aprendi a respirar. Aprendi na faculdade uma técnica para adestrar gente, e consegui tirar alguma coisa viva de tal aprendizado. Sendo assim respirar faz bem, movimenta minha pernas preguiçosas. Todas as vezes que a avalanche da raiva vem, eu respiro. Melhor ainda é respirar quando a onda do retorno passa. A maior mentira que já inventei é a de querer para desquerer. Essa mentira é apenas o momento de respirar, pois é artificial e ao mesmo tempo ajuda a não parar nunca mais. É movimento. É totalmente passageira. Mentira-respiração que cura da raiva e do amor ao mesmo tempo. Um tapa atrás do outro, no rosto. Respiro e não sinto dor. E ainda cuido para que mais tarde não deixe dores pós porrada. Dorzinha chata que com massagem piora e com remédio disfarça. Cuido agora. Mentira-respiração com bolsa de gelo. Tem gente que parte por não saber ficar e gente que fica por não saber partir. Que Deus perdoe e que Deus inverta só de vingança.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

E se fosse mentira?

músculo perdido dentro de uma caixa apertada. pulsando até não caber mais no espaço. debatendo-se no pouco espaço que lhe foi destinado. impedindo a vida de fluir. o dia se arrasta. é a vontade de existir. músculo pulsando até explodir. cabeça sonhando. músculo esperando a hora de falhar. pouco tempo para decidir. é melhor decidir logo. decidido. é melhor não se ter nada. das tentativas só o fracasso. um tempo para pensar. caminhos pulsantes como o músculo. cabe dentro de mim. tum tum tum. a historia da menina que explodiu por amar demais.

meus pés. aterrorizando os rapazes, facilitando para as meninas. olha que perigo é ser desse jeito todo. ai que perigo é dizer sim! mais ainda tentar. reflete nas consequências de se estar só. coragem demais atrapalha. vamos despencar. você não merece meus apelos. agora se sabe de outro tempo. por mais que o sol invada meu espaço, eu não acordo. deixando a poeira corroer as letras que prefiro ignorar. minha doença não tem cura. hoje o que dói é meu ouvido direito. caminho na direção oposta. não passa a dor nem o tempo.

você disse que viria. ele disse que queria mais. e pior ainda aquele que disse que iríamos conseguir. façam o favor de cortar fora a língua. falar menos é melhor do que falar demais. correr por entre o espaço da caixa apertada. faço minhas curvas para deixar o coração bater. mentira boa é aquela que a gente já sabia que ia descobrir mas preferiu enganar o peito. caminha, volta, fica com a morena mesmo que não queira. pode ser que seja melhor.
músculo perdido dentro de uma caixa apertada. pulsando até não caber mais no espaço. debatendo-se no pouco espaço que lhe foi destinado. impedindo a vida de fluir. o dia se arrasta. é a vontade de existir. músculo pulsando até explodir. cabeça sonhando. músculo esperando a hora de falhar. pouco tempo para decidir. é melhor decidir logo. decidido. é melhor não se ter nada. das tentativas só o fracasso. um tempo para pensar. caminhos pulsantes como o músculo. cabe dentro de mim. tum tum tum. a historia da menina que explodiu por amar demais.

meus pés. aterrorizando os rapazes, facilitando para as meninas. olha que perigo é ser desse jeito todo. ai que perigo é dizer sim! mais ainda tentar. reflete nas consequências de se estar só. coragem demais atrapalha. vamos despencar. você não merece meus apelos. agora se sabe de outro tempo. por mais que o sol invada meu espaço, eu não acordo. deixando a poeira corroer as letras que prefiro ignorar. minha doença não tem cura. hoje o que dói é meu ouvido direito. caminho na direção oposta. não passa a dor nem o tempo.

você disse que viria. ele disse que queria mais. e pior ainda aquele que disse que iríamos conseguir. façam o favor de cortar fora a língua. falar menos é melhor do que falar demais. correr por entre o espaço da caixa apertada. faço minhas curvas para deixar o coração bater. mentira boa é aquela que a gente já sabia que ia descobrir mas preferiu enganar o peito. caminha, volta, fica com a morena mesmo que não queira. pode ser que seja melhor.

sábado, 19 de janeiro de 2013

Presente

Retomo alguns hábitos. Beijar o gato, acender um cheiro, comer um pouco e usar mascavo. A vela derreteu tão devagar que tive bastante tempo para pensar. Errei tão feio da última vez que agora já sei o que é não amar. Apertei o gatilho, sufoquei o passado e ainda não sei dizer não, mesmo não querendo. É como comer comida fria e sentir muito enjoo. É como vomitar de tanto nervoso. É como ter passado a vida toda organizando tudo, sem realizar. Como três pratos frios até chegar ao quente. Minto e erro duas vezes até conseguir reparar em que momento repito as mentiras e caminho outra vez para o engano. Faço carinho no gato, ouço sua música na cabeça e prefiro outra banda. Hoje vou descer uns vinte goles, vou brindar a minha felicidade e as coisas que vou fazer sem me organizar. Quero poucos e todos. Todos os poucos que falam grego. Quero que meu telefone toque para pensar política meio a palavrões. Quero homens e mulheres. Todos com apartamento. 

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

A volta

Me convidei para entrar na sua festa. Que maldição esse medo que sentem de mim. Devo ter herdado de alguma parente queimada na fogueira. Os que arriscam, afundam. Bem, sua festa ainda não acabou. Falta você mudar logo de rumo. Pega logo o barco do passado e arrisca um pouco mais. Até eu tenho saudade daquela sua versão que não tive tempo de acompanhar. Abre logo esse zíper. Solta logo o todo tolo. Dá uma risada daquelas que deixam as meninas sem graça. Vou substituir suas palavras sérias pelas  minhas pornográficas e depois fazer propaganda da nossa pele para o espelho grudado na porta do seu armário. Corre do destino de revista. Corre do futuro seguro. Corre para cidade que me indicou. Também adorei. Vou estar por lá quando você mais esperar. Não precisa mais fingir seriedade para me provocar, não precisa mais chegar devagar. Vem chutando a porta. A minha e a sua. Salva nossas vidas e solta a voz. Aumenta seu tom que eu diminuo o meu. Salva nossos passos e nossas letras. Acelera meu peito mais um vez. O seu acelera também. Volta a dar meia volta. Pode me dar uma volta. Pode me dar duas voltas. Daremos nossas voltas. Juntos e separados. Assim sim. De verdade. Assim nunca vamos parar de embaçar o espelho do armário, o vidro do carro e a cortina da banheira. O céu despenca no futuro. O som acelera e finalmente chegamos no ponto que pretendíamos. Aí estamos prontos para recomeçar. Vende logo essa família de revista de bebê. Cancela a viagem sem graça. Abre os olhos, as pernas, sobe o tom de novo. Ainda dá tempo de rever aquele encontro certeiro. Revolta, reajusta, rebola. Um canto para nós dois, já deveria ter encontrado. Eu espero. 

domingo, 13 de janeiro de 2013

Caminho pelo corredor

O barulho da lâmina tocando o osso incomoda mais do que a dor. É que demorou tanto para chegar nos ossos que não dói mais. No entanto, o barulho me desperta e faz lembrar que ainda corta. Ninguém chora uma morte o tempo todo, mas pode ser que chore para sempre. Sentir a morte pressiona o peito, empurra minhas duas metades. Corrói meus dentes, impulsiona minhas mentiras, me faz avançar no que me destrói.Tem muitas palavras que eu não sei pronunciar. 
O barulho da lâmina cortando as frutas. O barulho da lâmina que vem da cozinha. São pedaços para se juntar. E ainda que perfeitamente recolocados irão apodrecer. Não há costura ou perfeição que reconstruía as antigas frutas. Porém não se preocupem. Despedaçadas ou não, apodreceriam do mesmo jeito. É aí que a lâmina pega do osso e não corta mais. Ossos fortes, lâmina gasta. O barulho da festa diminuiu, o meu olhar sossegou. Foi só um fôlego que tomamos na superfície. Nossas vidas são assim mesmo, tentando respirar o tempo todo.
O barulho da lâmina sendo arrastada pelas paredes. Tentando marcar aquilo que pode ser pintado. De cores ainda mais linda. Arranhando, marcando, deixando algumas letras escritas. O próprio tempo se encarregou de desgastar o resto da tinta da parede, deixando tudo uniforme. O tempo dos sonhos é exatamente aquele que precisa acabar, se a gente não acorda passa a ser realidade.Aí é só bobagem e barulho. 
Capto pouco no final. O suficiente para saber que ainda é a mesma coisa. A gaveta que tento abrir tem uma mola que tensiona para fechar. Ninguém sabe o que aquela mola faz ali ou quem colocou ou porque colocou. Pobre gaveta fechada. Pobre gaveta tensionada. Tão linda, de puxadores valiosos. E o pior, está cheia. Quem tensiona para abrir, por vezes consegue colocar alguma coisa lá dentro. O esforço para abrir é tão grande que todo mundo escolhe guardar uma coisa que gosta muito. O tempo tem enferrujado a mola.
Capto tudo. Quebro essa gaveta. Quebro meus dedos tentando deixar ela aberta. É assim que a lâmina corta a primeira camada de pele, tentando aliviar a dor dos dedos quebrados. Deixo na gaveta, pedaços dos dedos amputados pela força da mola. Capto o rapto dos meus dedos. Maldita gaveta cheia de pontas de dedos. A lâmina quebra ao chegar no osso.