terça-feira, 30 de julho de 2013

Saudade espera voltar

E se o amor resolveu dar uma trégua
Não fujo
E sendo você um grande mistério
Espero
E tendo eu e você um só corpo
Entrego-me

Caminho por estradas vazias
Insistindo em desviar 
Escolho saídas nas quais você 
não deveria estar
De repente, te encontro

E quando meu corpo treme 
É quando meu corpo duvida
E quando me faltam as palavras
É quando me sobram certezas
E quando sinto medo
É quando quero ficar

Caminho pelo caminho contrário
Encontro muitas dificuldades
Uma nova a cada curva
Penso ter parado de vez
Pois há muitas pontes sem início

E eu te amo
Te amo
Te amo
E amo mais
E te amo mais um pouco

Tenho filhos com você
Tenho livros com você 
Tenho tempo com você
Calma tempo com você
Volta tudo com você

Sendo assim suporto esperar
Reorganizo o tempo
Deixo tudo se mover
Tempero-me até você voltar
E vamos ver acontecer

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Mais um.

Reorganiza os perdidos, faz com que se percam os organizados, arrepia a pele quando promove a unidade da voz. Esclarece nossos velhos hábitos até que gastos mostrem por si só a necessidade de produzirmos novos lugares para tudo que está posto. Esquenta o coração dos pouco apaixonados, coloca o corpo das mulheres para ferver e as mãos disciplinadas pelo trabalho para levantar suas bandeiras. Arrepia a pele, esquenta os pés, ferve o coração e expõem os sonhos. 

Caminho aberto que junta mais um, mais um, mais um, mais um, mais um. Abre os livros e faz com que as páginas esquecidas se aqueçam. Sacode a poeira dos tambores e das bibliotecas. Esquenta a cama dos amantes, repensa os casamentos, reorganiza as casas e as famílias. Muda a posição vertical, impossibilita a posição fetal. Caminho aberto que muda um, escuta um, agrega um, faz pensar um, impressiona um, ama um, abriga um, contém um, explode um, mais um, mais um, mais um, mais um, multidão. Tem-se assim um movimento que sem saber para onde vai ou crendo saber para onde vai, vai. É como o tal amor que levanta a saia das mulheres e as considerações acerca da palavra homem. Promove encontros, arrebenta o coração dos jovens, faz sair de casa mais um. Faz pensar mais um. Faz querer mais, mais um. Fazer entender que pode mais, mais um. E se falta amor, na próxima semana tem mais um pouco.

Quando a vida deixa de ser uma aquisição. Quando a cor do sofá e tamanho do tapete estão em segundo plano. Quando o sexo esquenta nossos corpos como um todo. Quando o amor se reinventa no ato de amar. Quando as páginas dos livros viram sem parar. Quando a poesia entra pela veia e consome o coração dos mais apaixonados. Quando a poesia vem e assalta o coração dos menos apaixonados. Quando nossas casas podem ter portas abertas. Quando a carne salta pela calça e ninguém aponta o dedo. Quando não há uma cidade dividida. Quando as praças são nossas para luta e para cultura. Quando o cheiro da feijoada invade meu coração. 

As conversas explodem nos bares. Nas esquinas há novos encontros. O temor das escutas aumenta o volume do tesão pelo agir. As festas abafam as novas técnicas. A cama dos casais, a cama dos três, a cama dos quatro e todas as camas ardem de tesão e de novas maneiras de pensar. Os apartamentos agitam os instrumentos. Livros que vão e vem. Aumentam o diálogo e fazem a risada se impor diante daqueles que descobriram como funciona a sociedade. Discos antigos tocam. Há espaço. Há tempo. Há movimento. 

E se não parece novidade: que bom.
E se parece novidade: que bom. 

terça-feira, 25 de junho de 2013

Bosta

Foi nessa de esperar a bosta cantar que a bosta secou. Eu ficava por ali rondando os rapazes até que viessem falar comigo, até que me amassem profundamente e nesse meio tempo a bosta foi secando. Talvez tenha sido paciência, mas agora prefiro dizer que foi burrice. Eu ficava por ali ciscando, aguardando meu quinhão e a bosta foi ficando dura. Achar que bosta canta é achar que homem ama. Achar que bosta seca fica mais fácil de limpar é achar que homem que ama vai embora com um simples adeus. Foi nessa de esperar que enrolei as pernas, tropecei meus passos, quis dizer quem era e fiz inimigos. Eu ficava ali disputando namorado com alguma amiga desavisada como eu. O tempo fechou, o livro abriu e o poema chegou. Não é mais preciso implorar, nem desejar ser desejo. Desejo agora é troca. Potência agora explode. Tesão agora assume mas não determina. Bosta seca que vou ter que limpar. Bosta que vai feder enquanto eu limpo. Bosta que eu caguei. Bosta que eu deixei. Bosta que vai deixar um leve cheiro no ar para eu nunca mais esquecer que ele existiu, e ao mesmo tempo ter certeza que ela não está mais ali. É o cheiro de uma merda que já passou.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

E o amor?

Fácil seria se a culpa fosse dos outros. Tranquilo e ameno seria o destino se as escolhas não fossem minhas. Passa um, dois, três, mil. Passam todos os amores. Que doce era acreditar no destino e não questionar a paz que parece óbvia. O que mais pode fazer uma pessoa tão completa quanto pode o que o amor? Quase como um espírito que se apossa de um corpo adormecido, excitando e depois fazendo dormir. 
Tem o primeiro, o segundo e o terceiro. Depois tem os que sabem tudo, os de apenas uma noite, os para sempre. Ai ai ai que fácil seria se houvesse o tal espírito. Que trágico seria ser um corpo adormecido. Que belas são aquelas que chegam à galope e se acomodam no lugar que ainda estava quente da outra anterior. Que tristes são aquelas que ficam no mesmo lugar até que entre em combustão. O fogo se espalha e destrói tudo que acreditam ser possível construir amando. Que lindo o passado cheio de borboletas animadas. Que real o presente. Que delícia de futuro. Paz só. Nada de espírito amor. Nada de saudade amor. Nada de briga amor. Posse amor. Troca amor. Destroca amor. Mentiras amor. Expectativas amor. Fim da linha amor. Beleza amor. Traição amor. Coragem para seguir amor. Fidelidade amor. Unidade amor. Carinho amor. Sacanagem amor. Contrato amor. Regra amor. Saudade amor. Suor amor. Mudanças amor. Vírgulas antes do amor.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Como destruir um coração - Parte I

O que me faz esperar? Esperar resposta. Esperar que repita. Esperar para sair. Esperar para entrar. Esperar para pegar. Esperar o retorno. Espero para não perder e perco enquanto espero. Espero que ele venha. Espero que ela vá. Esperar é desejar parado. Espero que você. Espero que eu. Espero seu retorno. Algo como o aguardo, só que pior. Sem guardar nada, sem acaso, sem sobra pro passado. Espero que ele me toque. Espero que ele se toque. Espero que ele seja quem não é. Isso sim é esperar. Esperar pelo que não vai acontecer mesmo sem saber se vai ou não. Espero ao contrário. Espero de cabeça para baixo. Espero comer mais. Espero dormir menos. Espero para ser. Sou na espera. Espero demais. Enquanto espero meu desejo congela meus pés no chão. Congelados eles me fazem sentir. Sentir dor. Com os pés apodrecidos eu caio. E desta queda não sobrou amor, nem quase amor, nem passado, nem futuro. Não sobrou o menino bonito da época da escola, nem o rebelde da faculdade, nem meu marido mediano para quem eu levaria café com veneno em menos de seis meses. Não sobrou nada e eu fiquei ali. Caída sem meus pés, que se encontravam podres ao meu lado. Fiquei ali escutando a voz das pessoas que repete sempre as mesmas bobagens ecoando no meu ouvido. Lembrei daquela menina amarga que perdeu sua irmã sem nunca ter tido. Lembrei do menino apaixonado pela vida que perdeu a chance de viver um grande amor. Lembrei da morte do amigo querido que lotou grandes cemitérios ao redor do mundo. Lembrei da moto roubada e do tiro que levei no peito. Meu coração foi inchando. Meu coração apertou tanto na caixa que me faltou ar. Meu coração cansou de precisar esperar. O desejo congelou meus pés e me derrubou. Desejo de saber onde mora dentro de mim tanto amor assim que me faz óbvia demais, clichê demais. Não acredito mais no amor. Na vontade de viver um grande amor, talvez nisso eu ainda acredite. Foi por isso que destruí meu coração (seja lá onde ele mora) com as minhas próprias mãos. Não espero mais porque não tenho mais o que esperar. Escolho perder por dizer adeus, mais um vez. Pode ir agora, eu não vou com você. Esconde sua mão quente pois ela não me interessa mais.


terça-feira, 21 de maio de 2013

Incrível como se não houvesse amanhã

Ele não finge que entra, nem finge que sai. Ele não finge que lê, nem finge que sabe. Ele não finge que quer, nem finge querer demais. Ele que caminha diferente e fica lindo sem roupas. Ele que ainda é um menino. Ele que não finge que entra, nem entra demais. Ele que não finge lê, nem fala demais. Ele que caminha lentamente e fica mais lindo de perto. Ele que riscou compriiiiiiiido no meu peito. Ele que finge que ama e por isso ama demais. Ele que diz que ama por amar demais. Ele que caminha correndo e não deixa nenhum segundo da vida passar. Ele que ainda é um menino e fez minha vida mudar. Ele que não espera o tempo passar. Ele que é incrível como se não houvesse amanhã.
Se não tenho tempo de fazer diferente. Se não sei o que do tempo ocupa seu tempo. Se só tenho o que ele sabe me dar. Se ele troca meu nome e me faz acreditar. Se ele merece minha letras. Se ele tem no  peito o avesso do que prefere mostrar. Se cabe gente demais naquele peito aberto. Se cabe gente que não deveria caber. Se cabe, se sabe, se cava, se trava, se monta, se me encontra. Nada disso importa, pois gostar dele não é pensar nele. Gostar dele é pensar no encontro. Nos encontros. No amor. Nas possibilidades de amar. Sendo assim é possível dar adeus a todos os clichês da princesa moderna que não espera que ele ligue, mas espera que ele responda suas mensagens. Assim o amor é muito maior. O amor faz crescer, o amor faz pensar, o amor faz caber um monte de gente no meu peito.
Foi assim que descobri que o amor não limita, não coloca anel no dedo.
O amor liberta.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

você

Soltamos os ponteiros do relógio e deixamos o tempo passar. Você me deu um arrepio danado quando me pediu para ficar ao seu lado. Você me deu vazio no estômago e vontade de vomitar. Você desenha do pulso ao peito e do peito ao pulso. Você cabe no enlace das nossas pernas. Você me fez acordar com vontade de sair. Você me fez correr e querer voltar. Você que tem o tempo trocado e as pernas bambas. Você que mente pra mim e me faz acreditar. Você que é mais que bem vindo, vem logo, pode entrar.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Ponto cego

Sinto que estou morrendo e não peço que venham me ver. Apago o cigarro na língua e não peço que venham me ver. Corto as pontas dos dedos e não peço que venham me ver. De amor assim já transbordei faz uma cara. Não encontro a saída e ainda assim prefiro ficar vagando. Meu silêncio e meu não serão sonoros e não serão ao mesmo tempo. Não farei joguetes e nem inventarei um falso desejo, o meu silêncio é sempre mais forte do que qualquer decisão. Nego para afirmar depois e silêncio por não ter nada além do vazio. Nem sim, nem não. Nem começo, nem fim. Nulo, inexistente, invisível, não é que não sinta. Não é que negue para depois dizer sim. Apenas não digo, não represento. E aquilo que calo em mim é dor não compartilhada. É amor despedaçado provocador de inércia. 

Onde não digo. Onde não vejo. Onde posso colidir.Onde caio e não volto igual.
Silêncio que só pode vir depois de esgotar minhas palavras.

Sangue seco no buraco do silêncio.

Em câmera lenta a faca gira e aponta para o chão, meu pé fica no meio do caminho e sangra por isso. Furo de ponta de faca. Alguém tenta ajudar e quebra uma caneca de café cheia de água. A caneca quebra no meio e mais alguns caquinhos. Meu pé dói, sangra e lateja. Talvez porque você não esteja tudo lateja. Quem tenta ajudar se desespera e para mim tudo derrete. Enquanto tudo parece derreter.  Caminho e deixo rastro de sangue para pegar qualquer coisa e fingir que melhora mais rápido se limpar o ferimento. Sujo o chão e o buraco arde insistentemente. Penso nas possibilidades de amanhã e no que pode acontecer enquanto espero mais uma semana. Estamos em 2013 e apesar de estar cansada de saber que os remédios não fazem mais as feridas arderem eu temo antes de passar aquela aguinha que borbulha com sangue, depois a pazinha transparente. Tudo bem. Finalmente parece doer pouco. Mesmo sem dormir não tenho sono e um orquidário me  espera, mesmo sem fumar ainda pigarro e cuspo qualquer coisa verde verde verde. Não parou de sangrar e me faz pensar em como eu seria menos desprezível se me esforçasse para isso. Pensar nisso me faz rir com muita satisfação pois juro que vai ser diferente da próxima vez. O telefone chama e não era para mim. O buraco parou de sangrar, mas o sangue seco que está envolta fez um desenho engraçado perto do mindinho. O barulho me incomoda, a saudade dói, a dúvida é uma praga. O amor tem estranhos contornos, entornos, retornos. Deixo sangrar e secar pois não arde e não dói. Está aqui, bem furado, esfregando no meus olhos que o amor não tem magia, não tem mentira, tem contato e saudade.

ps1: odeio pessoas que fazem barulho para chamar atenção para seu mal humor. gente que bate porta, lava louça e não segura as panelas, gente que resmunga baixinho, gente que bate com as coisas na mesa e pisa forte no chão.

ps2: no silêncio também há vida.

ps3: ninguém fala por falar, mas as vezes falam demais.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Olhos perdidos/ Peito vazio.

Para mim e para você: cama de casal.
Para nós dois: risadas sem fim.
Refúgio no calor. Risadas de doer a barriga. Carregamento de besteiras. Todos os ouvidos. Novidade. Graça do acontecimento. Final infeliz.
Para mim: saudade.
Para você: mudança.
Para nós: um nó.
Curiosidade. Tagarelice. Encontro. Para quem?
Para nós: 3 dias de nada. Cama de casal. Biscoito. Cama de casal. Fotos.
Você não sabe fitar e por isso vou embora.

Dois tempos

Desordem era minha palavra de ordem. Eu não cabia dentro do meu próprio peito quando via a rapaziada chegar. Eu suava frio e palpitava quando chegava a hora de brincar. Estudar, voltar, brincar e ver a noite chegar. Eu tremia por dentro quando sentia meus pés no cimento, meus dedos ensopados de lama e meu peito molhado de suor e poeira. Chorava como criança que era quando o castigo era severo. Trocava o pé de chinelo, pé direto no chinelo esquerdo e pé esquerdo no chinelo direito. Morria de rir. Chorava com a dor de perder a cabeça do dedão. Comia com as mãos e seguia o mestre. Como era bom ver a molecada correr, que bom era sentir o frio na barriga que dá na hora do lanche. Fechava os olhos e desejava fundo bolo de milho e café com leite para todos os amigos. Às vezes sim, outras não. Como eram bons os sintomas de ser feliz.

Corríamos de um lado para outro e acreditávamos nas histórias de meu pai. Perdi meu pai logo cedo e dei um bom lugar pro vazio em meu peito. Era o lugar do meu pai. Perdi muito amor com esse vazio. Não faz muito tempo preenchi com o pai que me tornei. Meus moleques correm para todos os lados. Que tarefa mais esquisita essa de ser pai. Deixo comer isso, proíbo aquilo. Deixo correr ali, proíbo aqui. Qual a escola? Devem fazer inglês? Que tarefa ingrata. Que delícia é viver minha molecagem de outro ângulo. Moçada, todo mundo pra rua! Moçada, olha o livro que papai comprou: é Manoel de Barros. Dá um beijo aqui no papai. Como são bons os sintomas da dúvida. 

Suar frio, palpitar, tremer, escorrer, correr, ir, voltar, rezar, seguir, implorar, sonhar, criar, desejar, trocar, preencher o vazio com meu pai. Preencher meu vazio sendo pai. Ser criança e deixar de ser como uma tarefa contínua de quem assume o papel de ser adulto, mas não quer morrer de tédio. 

terça-feira, 9 de abril de 2013

Pequeno relato de uma grande vivência

Eles corriam faceiros sem se dar conta da diferença na cor de nossas peles. Subiam em árvores, caçavam caranguejos e faziam desenhos com lápis de cor. Pés no chão de barro, mergulho no mangue sujo, ritual religioso e cachimbo na boca. O que me disseram é que lá eles não mentem. Guarani até os cinco anos. Verdade no peito para sempre. Carinhosos não reconheciam em nós inimigos. Que talvez sejamos, ou tenhamos sido. O que do meu sangue é mais europeu do que índio?
Como são lindas as crianças de lá. O recorte em suas roupas industrializadas dando ar de indiozinho. A cor marrom brilhosa de suas peles. Os cabelo que escorre e pesa. O carinho gratuito. Não somos inimigos. Não tenho 24 anos, tenho mais de 500. E ainda assim não somos inimigos.
Crianças com cachimbo. Mães de quatorze anos. Crianças com pés no chão. Ritual noturno. Ausência de luz. Pegamos o barco, atravessamos pro outro lado. Comemos peixe, dormimos no hotel, brigamos, amamos, matamos as saudades, conhecemos gente nova e seguimos a vida. Não sei se somos mais índios ou mais europeus. Não sei se dá pra escolher. Não sei se quero escolher. Se devo escolher. Há um lugar onde não há motivo para mentir, ou aquilo que é mentira não se qualifica como tal.
Não povo não civilizado. Há povos diferentes.


domingo, 7 de abril de 2013

seguindo o seguir

seguro o verso, engulo a rima, sinto saudades, prendo o choro, disfarço a farsa, perco o chão, entorto o certo, desvio a vida, acabo com rumo, ignoro a felicidade, encaro passado, admiro o mundo, arrumo um amante, odeio tudo, caminho lentamente, invento a novidade, ignoro o amor, reconheço o erro, assumo as responsabilidades, coço os dedos.
morro de saudades, penso no futuro, admiro os casais, reconheço a felicidade, aprecio a unidade, escorro por entre a nova fase.
temo o fim, apresento o novo, sonho com dias melhores.
sinto saudades, alongo o tempo.
espero paciente.

domingo, 31 de março de 2013

Do lado escuro da vida

Do outro lado do mundo as coisas pegam fogo, explodem e se destroem em ódio e dor. Do meu lado as flores temem não nascer nunca mais e o fato da terra estar seca me paralisa. Descobrir que a água com a qual reguei as plantas fica guardada nas veias da folhas não me acalma a alma. Não posso ver o liquido correr como sangue e acredito que minhas plantas estejam sempre morrendo. Lidar com ódio parece mais fácil do que com amor. Lidar com o tempo. Lidar com aquilo que faz reboliço no peito. Dar razão para o que se sente pode salvar um coração, nunca dois. Adeus enjoada. A gente resolve um amor aqui, assiste outro nascer ali, perde o fio que conduz nossa própria vida. Se eu pudesse virar o mundo faria pegar fogo por aqui. Troco o amor que desconheço pelo ódio indomável. 
Saber se entregar para qualquer um é mais fácil do que se entregar para apenas um. Ser livre também não é fácil. Caminhar pelos caminhos tortos da certeza de antes, acertar os ponteiros da minha própria vida. O tempo vai passando. As coisas mudam. E mudam mesmo. O amor finalmente acaba e você sente a dor do desencanto. O amor finalmente volta e você sente a dor do desencanto. O amor que nunca teve chance de nascer deixa um gosto amargo de ser realmente amor. Nunca aconteceu e foi amor. Ser livre é mais difícil do que ser só. 
Será preciso então virar o mundo de cabeça para baixo. Será preciso aceitar o que não lhe pertence. Será preciso caminhar com sapato apertado. Os dedos vão sangrar, vão doer e talvez os passos sejam mais lentos. Será preciso aceitar os dedos machucados. Será preciso esperar que o novo sapato não substitua,apenas encaixe como se o outro nunca tivesse existido. Vai ser difícil deixar passar, mas não há outra saída. Adeus enjoada. O tempo é uma desculpa boa. Depois que o coração se acalma dizemos que foi o tempo e até esquecemos o que passou. Vai ser difícil. Já está difícil. O amor não pede licença para entrar, pra sair ou pra voltar. Já foi. Já está difícil.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Vento

Será que toda vez que ele se posiciona na frente da janela e pensa na vida, consegue fazer os pensamentos irem embora com o vento? Mesmo sem essa certeza é ir para janela o que faz sempre que tudo pesa demais para ser pensado na cama. A profissão que escolheu, o amor da sua vida ter aparecido justamente na sua vida, o cigarro que não larga e não quer largar, a barriguinha fora dos padrões, as certezas depositadas no futuro incerto. Ele sente o peito apertar e a dor sair no cantarolar de uma música com letra forte. Os pensamentos na janela atravessam as verdades pessoais e embarcam em suas escolhas políticas, suas decisões de todo dia, sua ética estudada e revista, e aquela coisa que ele não sabe como surgiu, quem escolheu ou quem moldou. Eles apenas é assim. Ele sofre com as dores e doenças que se espalham pelo mundo, ele sofre com do movimentos perversos do capital, ele sofre com a obrigação de se calar toda vez que se sente impotente ou em dúvida. Sempre que vai pra janela sabe que a situação tá preta. Nele e no mundo. O que pra ele é uma coisa só. Não sabe mais o que fazer, sai da janela e vai para o quarto. Dorme e acorda por obrigação. Viveria na janela se não sentisse um impulso transformador em vários momentos. Venta na janela, venta no trabalho, venta na viagem que não fez, venta nas certezas do amor, venta, venta, venta. venta. Ele não consegue decidir se o vento entorta ou conserta. Se o vento leva ou se o vento traz. Bom seria saber. Bom seria se o vento transformasse. Se o vento soubesse, se janela fechasse, se ele pudesse viver outra vez, outra vez, outra vez.

domingo, 24 de março de 2013

Casa de campo

Talvez o bolo fique seco, mas cheira muito bem. Se for para um, será de laranja. Se for para outro, de brigadeiro. Se for mais além será de coco. Se for para ela será de avelã. Se for para quem nunca será, castanha do pará. As vigas e escadas são de madeira. O cheiro da madeira se confunde com o cheiro do bolo. O gato faz charme. Se for de um, será só um gato. Se for de outro, dois gatos. Se for mais para trás, uns seis gatos. Se for ela, não será gato. Se for quem nunca será, um gato e um cachorro. O sofá pode ser no chão. Pode ser importado. Pode ser vazio. Pode ser quente. Pode ser furado. Pode ser cheio de criança. Pode ser cheio de livros. Pode ser apenas uma poltrona. Só cabendo um. Se for ele, se for ela, se for eu, se formos nós. Os quadros são antigos. Se for de um, de outro ou mais além, será bem colorido. Se for dela, será importado. Pode ser dança, silêncio ou pode não ter mais quadro nenhum. Talvez o bolo queime. Se for um, vai raspar o queimado e comer. Se for outro, vai comer com queimado. Se for quem nunca será, não vai comer. O chão é gelado e as paredes são de pedra. Se for um vai cavar. Se for outro vai deitar. Se for antigo vai partir e voltar, partir e voltar. E para não dizer daquele não nunca seria, se fosse esse colocaria um tapete para encher nossa casa de poeira e esconder as mazelas de uma insistência infundada. Talvez o som não funcione. Talvez toque as melhores músicas do encontro de quem gosta das mesmas coisas. Talvez nunca seja ela, essa já era. Pior do que nunca seria, nunca foi. Talvez tenha mais som do que letras. Ou melhor ainda, tem a serenidade e paz de quem sabe cantar de olhos fechados e ainda assim estar olhando para mim e não para si mesmo. Quase me esqueci desse trovador. Se for o trovador a paz vai reinar por alguns segundos, sua alma é mais magoada do que tenta aparentar. E se não for ninguém, o silêncio vai reinar. O sofá vai esquentar. O quarto habitar muitas histórias de amor. E o passado se tranquilizar como uma história justa de uma menina entregue as possibilidades das mentiras/verdades do amor.

terça-feira, 19 de março de 2013

Espelho duplo

Foi um soco sem medida. Minha imagem se despedaçou. Tentei colar minhas partes com as suas que cortei de um retrato. Não funcionou. Manchou do sangue que escorria dos meus dedos e das lágrimas que escorriam da minha saudade. Dedo quase amputado que apontava uma direção. A lentidão do tempo, a pressa dos anos, tudo isso nos fez tão bem. Longe e perto. O tempo nos esmagou.

quinta-feira, 14 de março de 2013

Das cinzas coração

Apodrecendo. Primeiro foram meus dedos e não pude mais escrever. Depois meus cabelos se dissolviam como pó. Se não fosse tão triste morrer em vida eu diria que frente ao espelho o cabelo virando pó é um bonito espetáculo. Meus pulmões já eram podres antes mesmo do meu pós morte. Entendam que eu não estava morrendo, morri e comecei a putrefação. Tudo teoricamente em vida. Meus lábios escureceram em velocidade desconhecida pela biologia humana. Me calei para não sentir vergonha todas as vezes que um pedaço podre de mucosa, ou um dente estragado caíssem na frente de algum conhecido da rua. Podia sentir meu coração parado, lutando para dar uma ou duas batidas por dia. Outro fenômeno que acompanhou minha morte viva foi o odor repulsivo. Odor característico daqueles que acompanham o fim dos encontros sinceros. Não existe nenhum fato que comprove o início da morte ou que aponte para as causas exatas do meu desmoronamento. Acreditei que se tratava de um castigo dado em função de minhas ausências. Talvez a poeira acumulada do meu apartamento ou os tiros disparados contra minha família tenham colaborado. Meus passos ficaram lentos por não ter mais carne nos pés, o odor reforçou os encontros falsos, o coração escureceu como um pulmão fumante e ainda assim não havia nenhuma cova para mim. Me mudei para um cemitério e fiz amigos. A ciência desconhece as doenças do amor e pude saber disso diante dos mortos com vida que encontrei tentando caminhar pelos corredores do cemitério. Calados por não termos lábios, nos entendiamos no olhar. Curiosamente nossos olhos permaneceram intactos, nem um pequeno verme ousou consumir o brilho triste que resta para os desiludidos. Ali não houve nenhum suicídio presumido e nem um assassinato. Concluo que tenha sido coisa da vida mesmo, coisa de quem se dedica demais ao impossível do amor. Desiludidos de amores que batem na aorta. Para esses a vida reservou um apodrecer tão lento que chega a se confundir com a eternidade.

domingo, 10 de março de 2013

Tautologia feminina

Não gosto muito dessa coisa de tipo. "Não faz meu tipo" ou "não tenho tipo" , são frases impossíveis e na medida em que se necessariamente se anulam deixam todos nós mergulhados num vazio incrível.  Façamos o seguinte: aceitar o vazio e abraçar um tipo de mulher. Falo daquele tipo que enrosca as almas, não compete com outras e treme diante de um imbecil qualquer. Forte demais para ser homem se torna imediatamente mulher. Cava grandes buracos no jardim para fazer com que as flores que cultiva tenham raízes grandes o suficiente para se fixar e ao mesmo tempo se espalhar para além dos limites da cerca. Suas flores crescem firmes e livres, coloridas e venenosas, perfumam e matam. Tem aqueles que se atrevem a entrar no jardim e aqueles que são flores. Esse tipo de mulher prefere aqueles que são flores, mas não é capaz de impedir a entrada daqueles que simplesmente invadem, roubam, pisam na flores. Ou daqueles que plantam mais flores. Ou daqueles que querem um pouco de tudo e acabam por não fazer nada.
Esse tipo de mulher é ao mesmo tempo, muito mais que jardinagem. Transita pelos cantos da cidade, faz estrago no seu próprio coração e acha que conhaque cura. Volta e meia alguém volta, arrependido, com o rabo enroscado. Ela é do tipo que deixa saudades. Que mente. Que simula. Que atua. Que representa a boa moça. No entanto, nem mesmo que a vida fosse um longa ópera o fim poderia ser evitado: a cortina fecha e  a máscara dela cai . A boa moça derrete. Sobra apenas figurino.
Se você não tem tipo, ou se ela não faz seu tipo, lembre-se: essas frases se anulam e fazem esse tipo de mulher surgir e desaparecer. Surgir e desaparecer. Surgir e desaparecer. Num movimento inquietante para ela e para os outros.

sábado, 9 de março de 2013

Carnaval

Quando se precisa de um tempo que não se pode ter fica pesado carregar meus instrumentos. Tento converter tudo aquilo em boa música, tendo escrever novas letras com idéias do passado, tendo construir uma nova ponte entre as coisas, e mais que tudo tento mudar tudo aquilo que me machuca fundo demais. Caminho errante e me surpreendo com as surpresas mais inesperadas. Erro nos planos e sinto que acertei no inesperado. Vai que chega logo o carnaval e tudo fica um pouco um melhor. Poderia pular o natal facilmente, como se fosse uma data inexistente no calendário falso católico. Falso para mim e para todos outros tantos que circundam meu corpo. Acredito assim que a tinta que cobre meu rosto, as curvas que não combinam com meu espelho e a insegurança que lateja apontem para uma certeza: o que começa falso, nunca pode terminar bem. É preciso se sentir livre para ser feliz, livre das próprias dúvidas e inseguranças. Sendo assim nem preciso de instrumentos, muito menos de boa música. Se não puder caminha sem as amarras da insegurança não servirá para mim. Caminho devagar, desvio dos desvios.